A avenida é um mundo nosso. Só nosso. Onde agente lembra e esquece coisas que só os quilômetros nos faz lembrar, nos distraindo. E a imensa lagoa onde passamos todos os dias abriga pescadores que lançam redes imensas como a vontade que os consome de pescar. A lagoa reflete o dia do céu, e a lua da noite. Lagoa silenciosa em seu tremelique contínuo de água ventilada.
Sempre olho a lagoa e em minha mente se passa um filme calmo, talvez um romance entre um garoto e uma lagoa. Talvez uma atração descomunal por águas vastas e paradas, eternas. Águas rasas e repentinamente profundas.
Acordei cedo para a realidade do dia. Na cabeça o compromisso, no cabide a roupa passada, lavada, antiga. Vesti-me com muito prazer, e fui me montando para o trabalho. Óculos escuros contra a claridade exagerada de fim de Março, fim de mês. Lá fora o vizinho indo comprar a galinha para a família que passa e fingi não me ver, me vendo todo. De quando em vez vemos alguém tão completamente que fingimos não ver. A rua esburacada a receber as rodas aceleradas dos automóveis decididos. Um automóvel decidido é uma pessoa decidida. As pessoas dormindo acordadas.
O sol das nove da manhã a cegar os óticos problemáticos. Setenta por cento de problema de vista no olho esquerdo. Lá no fundo do coração um problema: indecisão explícita. Querer algo que se quer e não querer ter a certeza de que se pode ter. Confusão familiar. Acordei sorrindo de minhas próprias conclusões autênticas. Conclusões precipitadas.
Fui andando vestido de jeans firme, blusa de botão, perfume doce amaderado caminhando em direção à improvisação. Ônibus improvisado. Minha voz era doce e firme, meus passos eram leves e certos. A cabeça erguida de confiança. Passageira confiança. Passageiros passos firmes. A fumaça do incenso na noite anterior a entorpecer a sala inteira, a expandir o aroma de rosas vermelhas.
Já na porta de entrada a pergunta: para onde devo ir. Resposta: vá direto, dobre à esquerda do banheiro e leia: Administração.
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