Foi de súbito. O céu de repente enegrecido, as nuvens tapando o sol em trevas. E todos puderam ter a mesma premonição. Em poucos minutos uma grossa chuva cairia do céu. Os carros correrão, temendo um maior engarrafamento. Muitas pessoas deixaram o guarda-chuva em casa por conta do impiedoso sol que fazia. Era um calor descomunal, a vida estava escaldante antes do meio dia. Encaminhei-me para a parada de ônibus e logo pude ver uma multidão de estudantes que voltava de uma aula matutina. Os adolescentes todos muito alvoroçados, conversavam alto, as garotas gritavam alucinadas. Quando uma garoa começou, era apenas o início. Todos tentaram encontrar um pequeno espaço debaixo de um telheiro da loja ao lado da parada, mas como a quantidade de alunos era muito grande não coube todo mundo. Eu, acreditando que sairia dali antes do grande temporal, não me importei em ficar com apenas um lado de meu corpo debaixo do alpendre. O vento soprou frio e agressivo, e os pingos engrossaram consideravelmente. E fez-se o tumulto. A grande chuva molhava a maior parte de gente, o vento trazia os pingos para debaixo do telheiro causando risos e gritos. Desmanchando maquiagem, encolhendo os cabelos, molhando os livros. Um garoto alto mostrou pura tranqüilidade, molhando-se todo e servindo de barreira para mim e uma garota muito baixa, que se escondia no meio das pessoas aglomeradas. Tinha uma garota de cabelos amarrados e sotaque diferente, muito da eufórica. Ria alto e esbravejava felicidade, infantilizada com a situação. Comentei algo com ela, ela me respondeu consentindo com a cabeça e esbugalhando os olhos num êxtase afobado. Nada do coletivo chegar. Sem mais nem menos, uma biqueira começou a derramar água, que trazida por um vento violento molhava todo o povo. E chegando o coletivo todos corriam corajosos, encolhidos num abraço aos livros. E num momento era possível perceber alegria naquela gente, e em mim também. Passou um velho aos pequenos pulos, com uma agenda na mão, sorrindo como uma criança, se divertindo com o banho. E todos riam alto quando a biqueira escorria em nossa direção, eram dados gritos, mas não era pavor o que sentíamos, era euforia contida. E me veio a lembrança dos meus banhos de chuva, que eram freqüentes no inverno, banhos no início do dia, a água gelada torturava, mas valia a pena. Um homem surgiu trajado de terno e gravata, calçando seu sapato social. Correu desengonçado para atravessar a rua chamando toda a atenção dos que estavam ali. Foi um riso só, um coro sincronizado de risos altos, era percebível um deboche saudável. O homem não se importou. A chuva parecia infinita, mas aos poucos cada qual foi pegando o seu rumo, aos poucos o céu foi clareando e um indício de sol aparecia. Tomei o ônibus junto com várias pessoas, que entravam molhadas e falantes. A menina baixa trazia o rosto machado, o lápis preto que delineava seu rosto escorria nas bochechas dando-lhe um aspecto macabro. Uma mulher muito interessada em nós comentou: Eita que vocês tomaram foi um banho, e riu simpática. Cheguei em casa, a chuva ainda não parou, houve uma pausa, mas logo os pingos voltaram cair
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