A fila cresce rápido, em minutos, pessoas impacientes formam a grande fila para entrar no grande e esperado ônibus. As pessoas se impacientam. Algumas escutam música com fone de ouvido, outras compram salgadinho do vendedor ambulante, a criança assanhada e gripada pede à mãe que compre um pacote de jujuba. E as horas passam vagarosas, e a tarde vai escurecendo. De repente é noite, há quinze minutos esperam estressados os passageiros. A aglomeração agora se torna medonha aos olhos dos velhinhos que esperam moribundos na fila preferencial. A grávida coça a barriga, os olhos fundos, cansados e desiludidos. Chega uma garota de cabelos amarrados e volumosos, cheia de livros grossos nas mãos. Está com mais três meninas franzinas que mal são percebidas. A menina do cabelo amarrado é a líder. Ela conta estórias arregalando os olhos e gesticulando com uma mão só, enquanto as outras escutam com um olhar de baixo pra cima, submisso e atencioso. Eu me encontro no meio da fila, nem tão perto, nem tão longe. Espero conformado, meio sonâmbulo e faminto. Venho do trabalho, do sol. Agora as conversas soam altas, os moleques planejam furar a fila. Alguns trabalhadores exaustos e queimados de sol resmungam palavras quase imperceptíveis, como se tivessem um calo na língua. Mas nada do que está acontecendo é um drama, mas sim vida. É uma parte da vida que está acontecendo. Os ônibus chegam lotados e saem lotados, essa é a hora de voltar pra casa, e todos que estão no terminal desejam a mesma coisa, numa ansiedade de loucos. Quando de longe alguém avista no letreiro de um coletivo o grande nome do seu bairro, o que significa que seu ônibus chegara. E se forma a bagunça. A fila que até então era bem formada, agora perde a direção, e a grande quantidade de gente querendo entrar ao mesmo tempo por uma única porta faz com que o sufoco aumente. O calor é grande, a pressa maior ainda. A hora de entrar é a mais delicada. Todos impulsivos inclinam o corpo pra frente e o atrito entre corpos começa. Eu, numa estratégia bolada, me esquivo um pouco dos empurrões e consigo entrar ileso. Mas quando estou bem próximo da porta, aí é diferente. As pessoas apressadas, agoniadas, empurram quem está à sua frente, e eu próximo da porta sou levado como por uma onda e se caso quisesse voltar não conseguiria. E as cadeiras são ocupadas num piscar de olhos. No momento exato da entrada existem duas mulheres na frente, uma mais apressada que a outra. A porta se abre e todos tentam entrar ao mesmo tempo. Acontece que as duas mulheres que esperavam o momento de correr para o interior do transporte agora lutam para uma entrar primeiro que a outra, o que deveria acontecer sem nenhuma cerimônia ou intervenção, se a fila fosse respeitada e organizada como deveria ser. Mas as pessoas estão preocupadas em garantir o seu lugar no coletivo. Depois que está dentro aí o alivio se manifesta, o roto de cada abranda, silencia. As duas tentam entrar, mas como há um ferro que divide a entrada em duas, as mulheres não conseguem passar pela mesma entrada e se atritam, mas a mais impetuosa num impulso entra e segue na frente se lançando para o interior. Ela é mais baixa e tem cabelos amarrados, deve ter seus trinta e sete anos. A mulher que ficou pra trás furiosa, se excede e num descontrole taca a mão na cabeça da outra, a mão aberta. E a abriga começa. A outra revida com um pequeno empurrão, mas recua, a mulher que começou é descontrolada e não mede os próprios atos. Eu estou sentado lá no fundo observando a guerra entre os ansiosos. Houve gritos, vaias, e todos quiseram assistir um pouco mais da briga que se deu na porta do coletivo. A mulher que bateu na outra agora fica falando alto: ela me empurrou essa louca, me empurrou e apertou meu braço contra o ferro. Já começando a sentir a culpa, o arrependimento, tenta argumentar ao seu favor, mas já está feito. O transporte segue seu caminho e o motorista não sabe nada do que está acontecendo, ele apenas nos leva de volta para casa. Exaustos, cada qual para no seu ponto e desembarca com o rosto erguido, seguindo numa nova direção.
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