Um emprestava-se ao outro. Por que ambos eram carentes e sentiam uma profunda solidão. O amor era isso pra eles. Um queria beijar e outro queria abraçar, e assim reciprocamente sentiam-se quase completos. Uma semana era o prazo pra que se encontrassem, durante o período que passavam longe um do outro se falavam por telefone num compromisso diário e noturno. Diziam sentir saudades longas e largas. Marcavam um encontro. E numa falsa e cansativa ansiedade esperavam o dia marcado chegar. Comentavam sobre os beijos que viriam e sobre os abraços que dariam. E assim iam preenchendo as horas sem fim e sustentando uma paixão quase forçada. Mas gostavam-se um do outro sim. Quando ocorria o beijo os corações descompassavam-se numa batida louca de incerteza e satisfação. Dentro do ônibus à caminho do mar ambos se olhavam indiscretamente, os olhos brilhantes, e secos de quando em quando. O corpo quente à espera do contato afinal. E olhavam-se num quase desejo real. Por que às vezes parecia que ambos inventavam uma paixão. Inventavam um interesse. Mas era tão bem inventado que se tornava bom e aconchegante quando se tocavam. A mão boba, solta e atraente, querendo pegar no rosto, na boca e nos cabelos do companheiro. A boca querendo beijar descontrolada e só. O olho. Mas o olho não negava o que se passava por dentro dos pensamentos, no íntimo dos desejos.
-Por que você me olha assim? Perguntava impaciente e feliz.
-Nada, não posso te olhar? Ou você prefere que eu olhe para outras pessoas?
Ficavam felizes. Tocavam-se secretamente. A ponta do dedo tocando a mão do companheiro já era uma aproximação reveladora de grandes desejos e sensações. De longe uma pessoa espiava a vida dos dois. Uma mulher magra e suja, triste com seus cabelos assanhados e sua boca de poucos dentes. Olhava num deboche maligno e cruel. Como se soubesse do dia exato em que terminariam um sem o outro. A grande solitária amaldiçoada era ela sentada a coçar a cabeça numa postura de bruxa. No fundo sentia inveja do amor dos dois. Sentia angustia de ser só. Era mais uma vida solitária e desgraçada. Os cabelos revoltos no seu engodo. O ônibus seguia em frente sacolejando os apaixonados. Vinicius pensava amar, mas de quando em quando parava e olhava a companhia e desinteressava-se por ela de súbito, como numa loucura. Por que desgostava assim tão de repente? Por que não era pra sempre? Indagava-se sem querer, sem prestar atenção na própria indagação.
- Vem, vamos sentar.
Uma perna triscando na outra. Um desejo crescendo sem querer. Sentados esperavam ansiosos o momento em que iam se abraçar, o momento do beijo desesperado e sufocante. Esperavam numa impaciência dissimulada e mortal. Vinicius era o centro do relacionamento, pelo menos era o que pensava. Ficava calado, devolvia um sorriso e sentia o coração batendo muito de leve quase sem paixão. Tatiana o olhava com ternura e rapidez como que só pra ter certeza de que realmente ele estava ali, como se um medo ou uma insegurança muito forte a fizesse imaginar que inventara a presença do amado, mas não, ele realmente estava ali. Tocava-lhe na mão, com muita cautela e silêncio como se fosse um crime gostar. Sentia um orgulho e vitória. Vinicius olhava pro lado de fora da janela, quase distante, quase sozinho. O ônibus deu uma freada brusca e ambos foram pra frente, sorridentes e acordados.
- sempre esses motoristas dão essas freadas agressivas, eles acham que vão levando animais dentro do ônibus. Comentara Tatiana satisfeita por ter o que dizer. Vinicius assentiu com a cabeça desviando o olhar e pondo um fim no sorriso. No fundo ele sabia que o relacionamento não vingaria, ele pressentia conformado, mas ao mesmo tempo preocupado.
Nos bancos da frente velhos conversavam auto e sorridentes, as bocas banguelas. Os namorados olhavam. Não havia mais o que ser dito. Ela sentia a presença, mas se incomodava com o silêncio, tinha a sensação de não está do lado da pessoa amado com toda aquela falta do que dizer. Ele olhava pro lado, pro piso do ônibus e pensava- temos que chegar logo, pelo menos assim nos abraçaremos e não ficaremos tão preocupados com a falta do que dizer- davam sorrisos amarelos. Era o fim. Sim, Vinicius pensava sem tristeza, aquela seria a última vez que sairiam juntos. Tatiana calada, agora ficava séria como num pressentimento ruim. Ele perguntava:
- O que foi? Por que você ficou calada, assim tão de repente?
-Nada. É que eu gosto de ficar escutando você. Gosto da sua voz, e ás vezes entro em transe, numa meditação doida.
Enquanto estavam juntos, já de tarde e sentados um ao lado do outro o tempo ia passando ligeiro e impaciente. Vinicius bebia rápido uma cerveja pra que talvez o álcool amolecesse seu coração, fazendo um esforço pra gostar de Tatiana que estava ali a beijar sua boca. Tatiana tinha a pele branca, a boca parecia um botão, era mais baixa que ele e mais audaciosa. Fora ela quem o procurou, ela roubou-lhe um beijo na primeira vez em que ficaram. E sua audácia foi seduzindo Vinicius que ria sozinho lembrando os beijos roubados. Mas ele não admitia uma paixão tão fácil assim. Como se apaixonaria por Tatiana? Como? Preocupava-se.
A tarde já chegava ao fim e ambos se adiantavam na volta pra casa. O mar revelava-se em ondas fortes e brancas que se quebravam já na beirada. Uma onda assustou um banhista que quase se afogou. Os dois procuravam o sol que estava se pondo escondido entre as barracas da praia. Vinicius um pouco ébrio abraçava Tatiana como numa última despedida, mas o abraço era ligeiro e seco. Os beijos já estavam monótonos e insípidos. Ambos sentiam que já estava morrendo a remota paixão do começo. Seguiam o mesmo ritual de sempre. Voltavam pegando um ônibus que dava uma grande volta por alguns bairros da cidade, e chegando num determinado ponto se despediam muito rapidamente, como numa fuga. Mas dessa ultima vez, foi mais rápido ainda, foi sem tristeza nem saudades, sem choro. Olharam-se, Tatiana com olhos baixos e miúdos, Vinicius com olhos risonhos e boca fechada e numa diabólica sincronia disseram: tchau! E a única coisa que sentiam era incerteza. Quando um abraço rápido os separou.
Já voltando pra casa Tatiana dissimulava com breves sorrisos a certeza que sentia dentro de si: que estava acabado. Por mais que se encontrassem outra vez, se abraçassem ou se beijassem estava acabado, ela apenas não queria aceitar, mas sem dor. No fundo só não queria se sentir inteiramente só.
Vinicius sentia-se aliviado, e agora seguia para um compromisso com os amigos, tranqüilo, sozinho como sempre fora e como sempre soubera ser. Talvez o destino colocasse Tatiana em seu caminho apenas para que visse que estar sozinho não era tão ruim como julgava, pensava com um ar de sábio, como se tivesse descoberto o segredo, e descobrira de fato. Agora era só dizer que não dava mais certo e ambos seguiriam seus rumos.
O amor também pode ser efêmero...
Nenhum comentário:
Postar um comentário