Sua casa não tinha paredes rebocadas e o chão era sem cerâmica mesmo, mas tudo de uma rusticidade tão aconchegante que amava viver, comer e olhar a vida da filha, que ia crescendo e se tornando uma mocinha muito educada e desenhista. Chamava-se Verônica e todos os dias acordava muito cedo para que Sofia não se atrasasse na escola. Os cabelos assanhados e já conformados com a cor alva esvoaçavam-se por conta do vento que soprava entrando pela varanda sem cadeiras e sem nada. Tinha consciência de como era pobre em relação a coisas materiais, mas não se desesperava, pois ainda tinha uma carta na manga. Seu talento de vender, de ir ao banco tirar um extrato ou fazer um depósito, mínimo, mas não deixava de ser um depósito. Além do mais conservava muito nítida a esperança de ter uma loja grande e sortida que ficaria para a filha como um seguro de vida. Sabia que ia morrer antes que a filha, pois já era velha. Pensava: tenho quase cinqüenta, e ria muito briosa com os dentes inferiores pra fora e mal alinhados cujo concerto ficou pra nunca mais. E pensava no marido com um amor tão infantil e desesperado, sentia um aperto no peito como se o dia fosse o último de sua vida. Usava um short Jeans muito antigo e esgarçado cuja lavagem tirou-lhe a cor azul. Agora possuía uma cor nebulosa de inverno que vem chegando. A blusa apertada deixava bem clara a falta de seios fartos. Quando Sofia nasceu ficou muito preocupada, tivera pouco leite, e precisou pedir ajuda na maternidade. As enfermeiras falavam mal de sua aparência e ela num desdém insignificante e fraco fingia que não ligava e que até mesmo não sabia.
Mas verônica possuía algumas amigas sim. Afinal como trabalhava vendendo de porta em porta, precisava conhecer muita gente pra fazer seu dinheiro aumentar e por isso era muito educada, dando bom dia e boa tarde pra quem passava. Mesmo assim não gostava nem um pouco da vizinhança que observava sua vida só por que gostava de ser conservada e não tinha amigos para farra ou coisa do tipo, não era uma libertina. O marido mesmo não bebia e nem fumava. Ah, um homem muito bom, pensava, e tão insubstituível que não lhe passava pela cabeça arranjar um amante. Nunca! Era feliz com o homem que tinha e ambos freqüentavam cultos religiosos onde verônica se sentia casta e filha de Deus. Mas de quando em quando verônica acordava irritada e chantagista. Disposta a berrar palavrão para quem quisesse ouvir por que a lama enlodada invadia sua calçada a cada dia, mais e mais. E num susto infantil e supremo de cego que volta a enxergar, mas descobre que está tudo diferente e que preferia a falta de visão a encarar o que se ver. Ela num susto via a água suja e parada só se espalhando silenciosa e fatal e tinha impressão de morar numa sarjeta quando o cheiro ruim subia. Os vizinhos cochichavam e falavam na sua cara que a lama estava muito concentrada. Ela desdenhava angustiada e ofendida, mas no fundo sabia que era verdade e que já não podia fingir morar num palácio com sua filha princesa que só engordava de tanto comer doce com creme de leite e beber água pra matar a sede. A televisão grande e moderna era o grande contraste do quarto miúdo e indiscreto. Um quarto sustentado não por paredes, mas pelo amor que sentia por Paulo.
Um dia depois de deixar a filha na escola foi ao banco pra fazer um depósito muito pequeno, e enquanto caminhava sentiu um toque no lado esquerdo do seu ombro. Era uma velha decrépita que clamava por ajuda, pois não conseguia atravessar a avenida por conta do grande número de carros velozes que tirariam sua vida se atravessasse sozinha. Ela resolveu ajudar, e aproveitou que a avenida estava livre. Ia puxando a velha e guiando-a, mas de súbito sentiu uma vontade negra e muito pontiaguda de jogar a velha no chão, de soltá-la e correr, deixando assim uma vitima de atropelamento. Um desejo de fazer o mal. Deu um breve sorriso malicioso e imperceptível. Por que pensar em fazer esse tipo de coisa? Perguntava-se culpada e medrosa. Não nunca faria tamanha crueldade. A senhora beijou-lhe as mãos com uma boca engelhada e sem lábios, melando sua mão com um pouco de saliva. Verônica ignorou e se despediu sorridente e avoada. Diariamente visitava o banco mais próximo de casa para juntar pequenas quantias de dinheiro com o intuito de reformar a casa e os cabelos. Mas sua vida era tão corrida na sua lentidão. Ela irritava qualquer um por ser muito lenta. Demorava a tomar decisões mais sérias e nunca se precipitava, nunca arriscava sem antes estudar a proposta ou a hipótese. Era feliz na sua pobre astúcia.
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