Estava eu à caminho do salão de beleza mais próximo. O tempo sempre foi cruel comigo, me enganado descaradamente. Fazendo-me correr por entre os pedregulhos do cansaço e me atrasando quando eu não podia chegar atrasada. Mas mesmo assim eu comprei um relógio só pra ficar olhando o tempo, e olhando-o acabo me controlando. Agora eu tenho certa percepção de tempo. Calculo-o melhor. Adivinho numa intuição quase sempre infalível o que vai e que não vai dá pra fazer. Então eu voltava do trabalho, já não agüentando mais meus imensos cabelos. Eu que passava longos minutos numa mania de perfeccionismo me olhando no espelho tentando penteá-lo, quando já não tinha jeito. À caminho eu pensava talvez, não me recordo bem, no que eu faria quando chegasse em casa. E ia seguindo numa correria comum de ansiedade presente. Avançava numa cegueira descomunal, entrando mais ainda na noite que agora era toda escura. Eu era capaz de ignorar um elefante que passasse por mim naquela minha pressa. Mas o que eu menos esperava aconteceu. Tanta era a minha vontade de logo chegar, de ficar pelada, pois quando corto meu cabelo me sinto nua. E toda estranha fico, com o pescoço mais alongado e alvo. Fico também com o rosto mais liso e mais visível. Sinto-me quase feia, mas depois passa. Acostumo-me. Então eu não sabia que um simples e rápido olhar acabaria com aminha desenfreada ansiedade de chegar ao salão. Um simples olhar que me paralisou tão repentinamente que me assustei. Era um homem baixo, e passei por ele muito rápida, parecia até fugir de alguém. Mas como explicarei a forma de como aquele olhar me penetrou? Meu coração bateu tão forte como quando acordo de um pesadelo e sinto o alívio de voltar a minha vida real. Senti uma dor gostosa e pungente que me despertou bruscamente. Foi isso que ele me transmitiu: uma realidade tão dura que mal pude suportar desviando o meu olhar rapidamente, num medo talvez de me entregar ao dele, verdadeiro demais pra mim. Apaixonei-me perdidamente por um olhar que foi meu por um segundo. Depois fiquei me perguntando o porquê. Por que ele me olhara daquela forma quase cruel? Por que me enfeiticei por ele de tal forma? Qual era o motivo de tal olhar? Depois passou, mas sei que não foi em vão. Sei que existiu um motivo muito forte para ele ter me encarado daquele jeito.
Extraído do diário de Clara Neves Monteiro, minha personagem.
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