sábado, 12 de fevereiro de 2011

Atuais Trabalhadores


Abre, depois de muita espera um portão branco-amarelecido que dá acesso a uma pequena área ocupada por congeladores. As crianças falantes entram apressadas, ansiosas. A Tia ordena impaciente com voz alta e aguda- aquietem-se, aquietem-se. E as crianças imundas tentam sem sucesso ficar caladas. É um grupo formado por seis meninos e apenas uma menina, muito braba, arengueira. Os meninos trabalham para a Tia. Da cozinha vem um cheiro nada apetitoso de bofe cozido, os meninos contam o dinheiro conseguido com muita andança e suor. A Tia é uma mulher muito aperreada, com afazeres minúsculos que sua mente complica. Ela pensa fazer um bom trabalho. Na televisão passa que trabalho infantil é crime, mas a Tia acha que crime mesmo seria se todas essas crianças ficassem largadas no mundo aprendendo a roubar e a usar drogas, são todos tão pequenos. As crianças são em geral morenas e beiram os dez anos, de um queimado de sol visível, um bronze que a vida lhes deu. Usam roupas velhas, claro, camisas bem maiores que o corpo, calção esgarçado e sujo. Alguns andam de calçados, e outros vão descalços mesmo. Mas todos com o único objetivo de vender e ganhar algum trocado na prestação de contas com a Tia. Eles andam por todo o bairro e ultrapassam fronteiras. Oferecem uma espécie de sorvete, o que atraí muita gente nessa cidade quente. Na placa permanente que fica suspensa no portão da Tia tem escrito preciso de vendedor, os meninos não sabem ler, mas a placa deixa bem claro que todos são facilmente substituíveis. E lá estão os garotos, na prestação de contas com a Tia, alvoroçados, embaraçados pela dúvida. Um menino muito danado pergunta: Tia quanto tenho que dar pra senhora?- a tia responde ríspida, por que apesar de sentir um afeto muito oculto pelos meninos não deixa isso transparecer- dez reais e vinte e cinco. O maior de todos, que exibi uma superioridade por saber contar melhor, começa a dividir o dinheiro. E no final das contas cada qual sai com uma quantia de dois a três reais, felizes. Um ou dois compra da própria mercadoria um sorvete para matar a sede. Os outros, não sei o que fazem com o dinheiro, provavelmente entregam a mãe. No dia seguinte, todos muito dispostos voltam ao trabalho.

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