quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Escuras Saudades


  Faz um tempo que estou procurando uma música. Música de estilo quase indefinido, mas imagino que seja um rock. Um rock pesado e muito leve ao mesmo tempo, por que me refiro ao peso sentimental e não ao instrumental. Uma música que me leve à antiga invocação imaginária e verídica por ser inventada, como uma bruxaria pessoal e secreta. Música fremente e dolorosa que faça meu coração comprimido bater quase numa saudade sem dó. Algo que transmita a sensação antiga de quem está entregue a escuridão, mas num conforto de feto dentro da barriga. Numa mansidão de adestrado. E hoje eu sei que tudo existiu, por mais nebulosa que seja a lembrança. Existiu um ritual seguido todos os dias, numa preocupação de quem não dorme sem antes rezar. E caminhava-se por entre a imaginação tão fantasticamente perdida. A imaginação rica de quem tem medo da normalidade. Uma pessoa que tem vontades de louco, mas que é julgado como normal. E o mar nessas horas tão distante, tão violento nas suas ondas e imensidão profunda e larga. As ondas quebradas nas pedras. A noite escurecendo o corpo do mar. O espelho natural e trêmulo. Uma moça em algum lugar da terra olhava-se no espelho d’água do mar e seu rosto tremia também, numa beleza nervosa. Um coqueiro tão esvoaçante nas suas palhas verdes. Um dia eu vi uma pessoa morrer no mar, o corpo ficou encharcado e morto numa palidez sem ar. Fiquei assombrado, não com medo, mas dentro de mim uma ansiedade surgia quando eu me lembrava da tragédia. As tragédias me inspiram. Assim como também me inspira e assusta nervosamente uma onde gigante e feroz. Uma destruidora onda que engole pessoas e casas, que avança sem pudor ou controle. Assim como também me assombra um tornado. Aquele vento em forma de redemoinho. A força descomunal de um tornado é igual à força das emoções que sinto e que saem arrastando tudo que ver pela frente.  

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