sábado, 21 de janeiro de 2012

As Consultas de Dona Norinha

        Dona norinha morava no apartamento 343 da Rua Antônio Furtado a um quarteirão de um dos maiores hospitais da cidade de Fortaleza. Morava sozinha. A única pessoa que estava presente todos os dias na casa era a empregada chamada Jéssica que lavava, passava e cozinhava; calma e calada. Era a companhia de Dona Norinha que a sobrecarregava de tanto serviço. A moça chegava cedo e saia na boca da noite pra ir de encontro ao namorado toda cheirosa e trajando um vestido que mostrava as pernas. Dona Norinha advertia áspera: Você trate de chegar amanhã no horário, não posso deixar de tomar meu remédio e você tem que me dar na hora certa! A moça consentia com a cabeça, submissa. No dia seguinte chegava cedo e tinha que ser muito paciente, pois ao acordar, a patroa se sentia altamente estressada, precisava do seu remédio.
       Dona Norinha era aposentada do governo e tinha dois filhos que eram casados e moravam no Rio de Janeiro, precisaram mudar devido ao emprego, ambos eram sócios. Eles bem que tentaram levá-la, mas não quis ir, afinal não trocaria seu lar conhecido e calmo por um lugar que nunca havia morado antes com aquelas pessoas de sotaque diferente. Os filhos tentaram de toda forma convencê-la, mas estereotipada não sucumbiu, disse que Jéssica cuidaria dela e que ficaria bem.
       Sentiu profunda solidão nos primeiros dias em que os meninos se foram, pra ela eles eram ainda meninos. Pensava: meus meninos adoráveis. Estou sentindo tanto a falta deles. Ingratos me abandonaram pelo Rio. Jéssica meu remédio! Logo se acalmava e ia se sentar de frente pra TV para assistir sua novela preferida com aquele ator bonito, lembrava o seu marido quando mais novo. Ah, lembrava do marido e de repente aquele vazio e lhe embalar numa tristeza já antiga. Quanta saudade de Afonso que se foi antes dela, não aceitava esse fato. Mas já fazia um bom tempo que o marido havia morrido e se sentir triste não tinha mais graça, se sentir triste provaria apenas que ela era fraca, e fraca não era! Sempre conseguiu tudo que quis na vida, emprego bem sucedido de funcionária pública, o apartamento dos sonhos, a viagem. Ah, sentia-se cansada, com seus 75 anos, estava cansada. Durante a tarde tirava um cochilo e sonhava com o marido de quando em vez, acordava chorando. ‘’Jéssica já está na hora do meu remédio?’’ O remédio era um tranqüilizante para os nervos que, aos poucos, deixou Dona Norinha dependente. Quando lhe vinha a angústia logo pensava na cápsula que lhe trazia calma e chamava pela criada.
       Jéssica precisava lavar bem os pratos e talheres, pois se Dona Norinha encontrasse um resquício sequer de sujeira, gritava apavorada. Com um tempo ela foi criando uma mania de organização e limpeza detestável. Aos sábados gostava de sair para respirar um ar fresco, sentava na praça que ficava de frente para o prédio, respondia ao comprimento dos senhores, dava uns sorrisos brandos para as crianças que passavam alvoroçadas com sorvete na mão. Ela tinha uma amiga que se chamava Elizabeth e cujo apartamento onde morava era vizinho do seu. Elizabeth era mais nova e trabalhava com fabricação de roupas e outras peças de tecido. Possuía um grande respeito por Norinha. Elas conversavam sobre o passado.
       Uma vez por mês Dona Norinha decidia ir ao centro da cidade comprar tecidos e flores para os arranjos da casa, ligava para seu chofer preferido e amigo chamado Gilberto. Ô seu Gilberto não me venha com atrasos, quero que o senhor esteja às 8 da manhã na portaria do prédio, não quero pegar sol quente. O chofer muito educado e solicito aceitava as ordens e não se atrasava, chegava sorridente abrindo a porta do carro e dando a mão a senhora que subia com dificuldade no automóvel. Esse trânsito caótico; comentava para não perder a chance de criticar, ainda bem que não dirijo mais, e nem posso, já pensou seu Gilberto eu ter que disputar com esses infratores?! Deus que me livre, e sorria breve, com dificuldade. Chegando ao centro, na loja todas as vendedoras já a conhecia. Rigorosa ela analisava os tecidos levando em conta as estampas. Este aqui é para um vestido. Olha, esse dá uma bela toalha de mesa. Este é cafona, não vou levar. E a manhã passava ligeira. Gilberto lhe ajudava com as sacolas, exausta Dona Norinha voltava pro seu apartamento.
       Numa manhã de terça-feira, Jéssica precisou ir ao dentista para extrair um dente que havia dias a incomodava quando comia qualquer coisa. A patroa relutante concordou com a folga depois de muitas explicações e queixas da parte da criada - mas Dona Norinha eu não consigo me alimentar direito, como vou sobreviver sem me alimentar?- A patroa concordou, vá, disse depois de um tempo. O que na verdade Norinha sentia era medo da solidão. Tinha medo de sentir angústia. Por que quando se encontrava sozinha, vinha-lhe um vazio no peito, algo que a deixava piedosa, e precisava se distrair nesses momentos, mas sozinha ficava difícil uma distração eficaz. Antes de Jéssica sair para o dentista, explicou a patroa que o remédio ficaria dentro do recipiente amarelo no armário da cozinha. Norinha escutou e consentiu, vá logo para voltar logo, advertiu. Jéssica desceu pelo elevador de empregados e se foi solta.
       Definitivamente não gostava de ficar só. E se precisasse tomar banho, como secar o banheiro? Sem Jéssica na casa ela se sentia muito vulnerável. A campainha tocou apressada e ela num sobressalto respondeu que já estava indo. Quem seria e o que queriam? Vagarosa, Norinha foi em direção à porta. Era apenas um vendedor de livros que lhe contou uma estória mentirosa, claro, só podia ser mentira toda aquela estória, logo dispensou o moço e disse que não tinha interesse em livros didáticos. Ah! Acho que já devo tomar meu remédio, lembrou-se emergindo de uma nostalgia que a tomava desde que se sentou de frente pra TV, afinal a programação estava tediosa, e Jéssica demorava. Mas aonde Jéssica guardou mesmo o remédio? E num sobressalto levantou rápida e aflita, pôs-se a procurá-los. Vou ligar imediatamente para aquela menina. A moça não atendia. De certo o dentista lhe arrancava neste exato momento o dente de que tanto se queixava. E agora meu deus? E meus nervos como ficam sem os remédios? E começou a vasculhar gavetas, potes, jarros, e nada. Sem obter sucesso na procura começou a se sentir enfastiada, parou na cozinha e ficou de pé estática e silenciosa se concentrando nas lembranças, a mão trêmula: Ah, já sei! Nervosa e completamente ansiosa norinha abriu a portinha do armário da cozinha e retirou, rápida, o recipiente amarelo onde Jéssica guardava alguns remédios. Sacou a cartela de tranqüilizantes e num ímpeto de ansiedade e nervosismo acabou tirando dois remédios de uma vez só e engoli-os rápido, sem água. A casa estava tomada de um silêncio familiar e Norinha após engolir os remédios ficou parada diante do frasco sem pensar, até lhe veio um breve sorriso na boca de dentes postiços, mas foi um sorriso quase imperceptível e fechado que durou apenas dois segundos. Caminhou até sua cadeira de frente pra TV, pôs no programa e logo pode adormecer sobre o efeito duplicado do calmante. Quando Jessica chegou, muito preocupada, pois conhecia a patroa como ninguém e tinha absoluta certeza de que esqueceria o local do remédio, entrou gritando o nome da patroa: Dona Norinha, cadê a senhora hein? A patroa roncava com a cabeça virada pro lado. Quando tocou no braço da patroa percebeu que sua pressão não estava normal e ficou preocupada. Vou ligar para o Doutor Paulo.
       Após a visita do Doutor Paulo, que por pura sorte trabalhava dando plantão no hospital perto do apartamento de Norinha e que lhe receitou remédios para a pressão. Acontece que a patroa de Jéssica começou a sentir, segundo ela, umas dores grandes na boca do estômago e nos ossos. A moça não acreditava em uma só palavra, dizia pra vizinha que era tudo coisa de gente velha que não tem o que inventar aproveita e inventa doença. Mas a patroa insistia.
       -Jéssica não me venha com dentistas amanhã, tenho que ir ao hospital falar com o Doutor Paulo, minhas costas doem e preciso de um novo remédio pra dores, um mais forte.
     
       E diariamente como num expediente profissional Dona Norinha, preocupada com a saúde, ia até o hospital a um quarteirão de seu apartamento. O hospital era particular e cada consulta custava uma boa grana, o que não intimidava a velha. Todos os dias era uma doença maior, mais grave e urgente. A recepcionista de cabelos ruivos amarrados, os fios puxados pra trás com força, olhava a paciente com uma simpatia vinda do fundo de seu profissionalismo e dizia: 
       - Mas Dona Norinha o Doutor Paulo lhe consultou ontem, lembra? Ele passou até um remédio, que por sinal é o mesmo de todas as consultas.
      - Mas minha filha você não entende? Eu estou velha tenho que ver O Doutor. Diga-lhe que estou aqui, tenho certeza que vai me atender, eu preciso ter certeza do que estou sentindo.
       A recepcionista consentia e ia até a sala do Doutor:
       - Doutor Paulo, Sua paciente especial está aqui de novo. Disse que quer outra consulta.
     - Ah meu Deus, de novo Carmen? Diga-lhe que entre, acho que essa senhora na verdade sofre é de amnésia.
       E mais uma vez as queixas, as argumentações da velha. O Doutor ouvia tudo paciente, sorridente, numa simpatia vinda de seu profissionalismo. A paciente voltava pra casa com um sorriso quase fechado. Os que esperavam cochichavam fofocas ruins sobre Norinha - essa velha só pode ser louca - arriscavam. E Norinha se ia andando de vagar a dar observações sobre a consulta a Jéssica, que não escutava nada.
       Numa manhã de sol forte Norinha deu uma folga a Jéssica e não reclamou muito, a empregada espantou, mas ansiosa pra andar pelo mundo foi-se rápida saindo pela porta da rua. A velha se sentia tranqüila nesse dia, sentou-se comendo algumas bolachas açucaradas e redondas, mesmo sabendo do risco de Diabetes. E pôs-se a balançar sua cadeira pra lá e pra cá. Lembrou dos meninos, e sentiu uma angustiante saudade. Olhava o relógio contando a hora para o remédio controlado e foi vendo o dia passar na sua monotonia de sempre. O Doutor Paulo não estava no hospital na quarta-feira.
     Quando Jéssica voltou no dia seguinte se deparou com Dona Norinha dormindo ali tranqüila, e riu baixinho pensando: essa dona Norinha... Cutucou o braço da patroa e voltou rápida pra trás tapando a boca. Ela estava gelada e dura, meu Deus Dona Norinha morreu. O pessoal do prédio acudia a moça que soluçava aos choros. Ao lado da cadeira de dona norinha tinha uma cartela com apenas dois remédios e mais tarde descobriram que por algum motivo a velha exagerou nas cápsulas e não resistiu, o coração parou. No hospital sentiram sua falta. Os pacientes que esperavam na fila gostaram, a recepcionista ficou espantada com a morte repentina e com a causa, e o médico ficou triste, afinal aprendera nessa sua profissão a sentir empatia pelos pacientes. Jéssica ficou com a lembrança e alguns pertences da patroa depois da concordância dos filhos, e se foi por aí com seu namorado e seu vestido que deixava suas pernas de fora. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Verbo na Primeira Pessoa do Singular

Eu faço. Eu traço. Eu passo. Eu laço. Eu posso. Eu. Eu quero. Eu peço. Eu tiro. Eu quebro. Eu colho. Eu fosso. Eu. Eu tusso. Eu rasgo. Eu largo. Eu levo. Eu dou. Eu. Eu tiro. Eu estrago. Eu levanto. Eu pergunto. Eu trago. Eu. Eu levo. Eu calo. Eu falo. Eu sinto. Eu pinto. Eu. Eu reclamo. Eu subo. Eu desço. Eu afundo. Eu emerjo. Eu. Eu pisco. Eu beijo. Eu lasco. Eu amo. Eu falo. Eu. Eu calo. Eu atravesso. Eu ultrapasso. Eu junto. Eu espalho. Eu. Eu bebo. Eu como. Eu balanço. Eu caio. Eu pego. Eu. Eu solto. Eu falho. Eu tento. Eu tampo. Eu faço. Eu. Eu escrevo. 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O Limiar de Uma Tragédia

      Conheci verônica quando eu tinha uns quinze anos de idade, ainda muito alvoroçado eu era com meus pensamentos loucos da adolescência. Eu não gostava dela. Na verdade minha amiga era sua irmã Tais. As duas moravam uma ao lado da outra, Taís com a mãe e verônica com os filhos e marido. Era uma família aparentemente unida apesar dos conflitos freqüentes ninguém era intrigado de ninguém. Sempre fui uma pessoa de me envolver muito numa amizade a ponto de se tornar um quase membro da família e não tardou para que todos da família de Taís me conhecessem. De início a mãe de Taís se mostrava fechada, sem opiniões, sem sermões, sem sorrisos, mas com o passar do tempo ela foi se acostumando com minha presença e com minha agitação interior e exterior. Havia apenas uma pessoa que não gostava de mim, por motivo que desconheço até hoje tendo vinte anos: Verônica.
       Nós éramos muito apegados, a ponto de termos certo relacionamento amoroso. Apesar de Taís gostar de mulheres ela se mostrou, após um tempo de amizade, interessada por mim e eu havia bastante tempo desejava lhe tocar nos lábios com os meus lábios desejosos de seus beijos. O que me faltava era coragem de assumir a atração que eu sentia, afinal de contas ela me contava de seus interesses por certas garotas e eu engolia seco, aquelas estórias, conformado com nossa amizade íntima. Nós passávamos tardes inteiras juntos. Quando Verônica entrava no quarto de Taís, nos surpreendendo, era normal ela me direcionar xingamentos como: Oi veadinho, como vai? E eu tomado por uma raiva descomunal a mandava ir para o inferno lhe despejando palavras horríveis de tão baixas. Ela me repudiava.
       Taís começou a freqüentar minha casa e conhecer minha família, meu pai não gostava da cara dela, pois era muito fechada, a voz baixa, e apesar de ser alta, morena, se mostrava tímida diante dos desconhecidos. Apesar de manipuladora, vim descobrir esse seu defeito depois de um tempo, sua timidez era na verdade uma astúcia disfarçada, como se ela estivesse planejando algo, daí o silêncio, o mistério. Eu a levava para os passeios que fazia com meus pais na casa de uma tia, meus familiares a olhavam, eu percebia, com certo preconceito. Mas nada disso era algo que abalasse nossa grande amizade que só crescia. Além de sermos andarilhos e freqüentarmos diversos lugares, agente bebia muito. O álcool não podia deixar de estar presente nas nossas festas e farras. Sem contar que nós éramos adolescentes e nada pra gente na época era perecível, agente não temia nada e nós não conhecíamos de certa forma a responsabilidade, momentos bons.
       Taís um dia chegou e me contou que havia conhecido uma garota chamada Samara e  que havia ficado com essa menina, que estava começando a se apaixonar, eu fiquei enciumado, mas ao mesmo tempo fiquei curioso, pois significava uma nova pessoa no nosso ciclo de amizade. Eu não sabia se ficava feliz, ou preocupado. No fundo temia perder Taís pra sempre, temia perdê-la pra Samara, o que não ocorreu. Samara apesar de ter dezessete anos era muito presa pela família e não morava tão perto de nós o que dificultava a relação das duas. Elas iam pra minha casa e namoravam lá, eu sozinho sentia falta de alguém, sentia desejos secretos que não compartilhava com Taís. O que me intrigava era que Verônica aceitava tâmara numa boa, apesar do seu jeito masculino, ela a tratava bem, já eu era sempre caçoado.
       Um dia as meninas resolveram não ir para o colégio, o que se tornou freqüente quase diariamente, e compramos bebidas. Fiquei bêbado e discuti com verônica o que marcou nossa intriga, deixando claro pra todos que nós não nos gostávamos. Dessa vez ela se irritou tanto com minhas sujas palavras que contou para seu marido e para a mãe, o que não foi positivo pra mim, pois eles não conheciam a minha versão da história. Taís conversou comigo, fiquei triste, me senti humilhado, mas passado um tempo lá estava eu socado no seu quarto.
       Num domingo de céu nublado as meninas estavam na minha casa, namorando em minha cama, elas não faziam sexo, pelo menos enquanto eu estava por perto. Eu comecei a me envolver na história das duas, nas brigas, dava sugestões, conselhos, abria o olho de cada uma. Fui me metendo como não deve se meter. E Samara apesar de seu aspecto infantil de menina mimada foi se tornando minha amiga, fui descobrindo coisas em comum entre nós o que nos unia diariamente. Na tarde de domingo nublado, Samara precisou ir embora e fiquei sozinho com Taís. O som tocava um jazz romântico, eu me mantinha deitado com minha amiga a lhe fazer carícias, quando num movimento inesperado nossos lábios se encontram e eu numa mistura de espanto e excitação correspondi seus beijos longos e molhados. Quando terminamos os beijos ficamos em silêncio, não tocamos no nome de Samara e lhe confessei de minha atração antiga. Ela me contou que já teria me beijado bem antes se eu tivesse me manifestado.
       Depois do episódio do beijo, nós freqüentemente repetíamos a sena, mas não demorou para que descobríssemos  que não nos amávamos, agente tinha uma amizade grande e íntima, mas era apenas isso. Porém Samara um dia nos pegou sozinhos e aos beijos, o que causou grande briga entre nós três. Nós estávamos todos bêbados e a única que conseguia ter razão era a traída, afinal se sentia apunhalada pelo amigo e pela a namorada. Lembro-me que demorou bastante para que Samara me perdoasse, mas esquecer ela nunca esqueceu, até hoje me passa na cara numa brincadeira aureolada de verdade.  
       Houve um tempo em que começamos a freqüentar a casa de Samara, seus pais trabalhavam o dia inteiro, e pouco as meninas iam pro colégio, hoje já estão concluídas no ensino, afinal foi tudo uma fase. A casa de Samara era grande, silenciosa, com uma cama de casal disponível e uma parte por ser construída. Várias tardes passamos os três deitados naquela cama de colchão mole. As meninas aos beijos e eu aos papos e carência. Elas me chamavam e eu ia acompanhado de um litro de vinho. Apareceram alguns meninos que me foram apresentados, algumas meninas que me fizeram breve companhia, mas no fim das contas eu permanecia sozinho, ocupando um pequeno espaço do colchão e rolando junto de minhas amigas nas tarde infindas, nos sonhos juvenis.
       Existiu um período de nossa amizade triangular em que a mãe de Taís queria deixar o bairro e ir morar em outro local, o que foi suficiente para nos deixar desesperadamente tristes. E saíamos os três a vagar, sem grana, recursos, mas com uma amizade arrebatadora que nos preenchia em todos os aspectos. Agente vagava pelo mundo, e nós pertencíamos ao mundo sem ambições, nós só queríamos uns aos outros. Chorei muito imaginando uma dramática despedida. Acabou acontecendo de Taís descobrir que não ia embora e nossas lágrimas cessaram enxugadas pelo vento.
        Aconteceram os aniversários, as intrigas, as traições, as fofocas. E os anos foram se passando, eu fui me distanciando. A relação das meninas começou a ficar doentia e o fato de eu ser amigo das duas me punha numa posição ameaçadora, perigosa, ambas queriam ajuda e eu não podia deixar uma de lado. Acabei sendo pressionado pelas duas em segredo, uma queria saber isso, outra aquilo, eu ficava em cima do muro. Sem saber de que lado ficar, e sem suportar a doentia relação que as duas criaram com ciúmes excessivos, com atitudes manipuladoras, com chantagens, eu fui me distanciando, fui conhecendo outras pessoas. Até que chegou um dia em que esqueci o aniversário de Taís e ela se magoou comigo, por ser muito apega a datas comemorativas, ela percebia minha distanciação calada.
       Agora, cinco anos depois, as duas continuam minhas amigas. Taís trabalha, estuda, e vive bem com sua namorada que não conheço. Agente foi se afastando aos poucos e chegou um momento em que não nos conhecíamos mais como antes, eu havia mudado, ela havia se transformado em mulher, eu amadurecido, e Samara depois de muita relutância conseguiu acabar definitivamente o relacionamento, começou a trabalhar e se expandiu pelo mundo a fora a procura de novos amores, de novas fobias.
       O que me intriga é Verônica que hoje me trata com tanto amor. Na época de minha grande amizade com sua irmã, quando ela possuía uma família bem constituída, tinha a cara fechada, e sorria debochada. Atualmente quando passo na rua e ela me ver, grita meu nome, me chama atenção com um sorriso aberto, amarelo. Até um abraço ela me deu. Hoje, quando exausto eu voltava do trabalho num coletivo lotado ela me chamou o nome: Ricardo. Eu respondi com um sorriso e ela foi logo falando: Eu vou ter que resolver o problema da loja. Estou me separando e tenho que registrar minha firma. Ricardo, estou perdendo meu marido pras putas. Pude ver a tristeza em seus olhos, sua voz era abafada e surda. Esforçava-se para que a voz não falhasse.  Ele se tornou tão diferente depois que conheceu duas mulheres que atualmente trabalham com ele na outra loja, meu filho mais velho ficou do meu lado e ele disse que o desprezava por isso, você acredita? Ele deixou a igreja, vai só por ir, não ama mais. Ele está sendo vítima de macumba, gasta dinheiro com bobagem e não faz um investimento. Pelo menos vou ficar com a loja lá de casa. Ele me bateu na cara, fiquei com o rosto roxo, vou levar um boletim de ocorrência que consegui na delegacia pra audiência.  Resolveu me deixar pelas vagabundas, e duas logo. Preferiu passar o aniversário dele com elas do que com a família. Saímos do ônibus, eu comovido com a vida dela, ela muda. Dei-lhe um abraço e ela beijou meu ombro, eu lhe disse que ia conhecer um homem bom e lhe pedi que ficasse bem. Seguimos os nossos caminhos, de volta pra casa.
       

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Sua Voz Rouca

Oh meu querido, eu estive pensando na gente, e agora já é hora de dormir, pois já passa da meia noite. Quando eu caminhava de volta pra casa na escura rua, o vento soprou forte em meus ouvidos e então eu pude ouvir sua voz rouca me chamando. Mas eu estive pensando na gente, e de vez em quando pensar em você me deixa muito confuso. Talvez eu não tenha toda certeza, e preciso decidir se vamos até o fim. Com você eu vou ao fim do mundo e não me canso. Mas está na hora de dormir, pois essa insônia tem que acabar. Quando o sol resolver aparecer vou ter que estar bem. E não quero mais ter que duvidar de nós dois. Você deveria me fazer ter certeza. Não seja covarde e me traga a certeza da qual preciso. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Ondas de uma maré cheia.

       Clara tinha próxima de casa uma lagoa grande e conhecida com campo de futebol e uma calçada imensa. Ela amava esse lugar, pois o vento de lá soprava mais fresco em sua face. Num sábado ensolarado Lara sentiu dentro de si a ausência de algo muito anônimo, e isso lhe desencadeava uma impaciência melancólica de quem está a mercê do destino. Então tomou um banho, se perfumou e resolveu caminhar um pouco, espairecer. Enquanto se aproximava do calçadão ao redor da lagoa Clara olhava a rua, a vida em si, e de novo a ausência. Era como se ela estivesse esquecido de como se vive, como se não pudesse mais ver as coisas como antes, e tudo vindo de uma grande consciência que muitas vezes ela não desejava. 

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Vivência de um amor platônico

É, mesmo sem ter propriamente arriscado eu ainda fiz de tudo, de tudo pra te amar. Te amar é um absurdo. Eu me aproximei de você e toquei sua cintura, mas sua ignorância não te permite perceber minha imensa paixão. De que valem essas palavras? De que vale meu coração? 
                                                                          . . .

Apesar do meu coração te sentir fortemente dentro dele, eu sei da grande ilusão que estou vivendo, o quanto fantasio pensando em te ter. Nesse momento estou completamente sensível, precisava de sua presença, do seu olhar. Por que eu amo quando você me abraça na frente de todos. Você finge que não percebe que eu te amo, e eu finjo não te amar, e nesse fingimento recíproco eu vou vivendo dia após dia ao seu lado. 
                                                                          . . .

sábado, 20 de agosto de 2011

Barzinho

Sentia saudades desse lugar, dessa liberdade que o ambiente aqui transmite.
Essas luzes vermelhas dando um ar de bordel, essas mesinhas de madeira. Tudo forma um bar super agradável. Mas o que me chama mais atenção são as pessoas que se encontram aqui, os meus amigos, claro, e os outros, que sentam nas outras mesas, que conversam sobre outros assuntos, que bebem outras bebidas e usam outros cortes de cabelo. Gosto de gente, não troco a presença de uma pessoa por um computador. Portanto não me peça pra ir embora, eu quero ficar aqui esperando dar a minha hora, em quanto isso, de vez em quando vou lembrando de você.