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terça-feira, 17 de abril de 2012

       O que escrever quando se pensa no vazio? Como descrever o vazio? Enquanto não se descobre, é melhor inventar qualquer coisa e seguir escrevendo mesmo assim, só pelo prazer. Tantos planos eu tinha antes de possuir esse moderno programa. As idéias se vão perdidas como a lembrança de um tempo longínquo, onde as imagens reproduzidas são de um amarelo encardido, imagens difusas e incompletas. Agora mesmo, como não sei, lembrei-me de uma casa que frequentei em criança. Quando meu pai decidia reformar a casa onde ainda moro, para não viver entre a poeira que se expande rapidamente quando o pedreiro quebra o reboco, nos mudávamos para um quartinho numa vila aqui vizinha. Eu gostava como criança curiosa que era. Sair de casa me fazia sentir outra pessoa, mudada e experiente. Os donos da vila moravam na casa ao lado. E freqüentemente lá estava eu na sala dos vizinhos assistindo televisão, calado e com um quase sorriso nos lábios. Quando me sentia cansado cutucava minha mãe com voz manhosa, vamos pra casa mãe, e assim todos me olhavam zombeteiros e me imitavam: vamos pra casa..., eu sorria envergonhado. Eu sabia que lá não era minha verdadeira moradia, mas me era aconchegante o cheiro que as paredes conservavam. Um cheiro de parede recém rebocada. Um cheiro de cimento gelado. Como era um quarto apenas, minha rede ficava num canto apertado e eu, ainda pequeno, me encolhia como numa concha.
       Outra coisa me agradava: era possível alcançar a torneira do chuveiro, o que me deixava com uma impressão de independência. Do lado do quarto onde estávamos hospedados morava uma família. Era constituída por um casal de crianças e seu pai. Um homem de peito erguido e rosto sério. Não tinha mulher. Falava pouco com a vizinhança e todos sabiam que não duraria muito ali. Tinha um ar agressivo. O garoto seu filho era mais velho que a menina, então durante todo o dia enquanto o pai trabalhava longe de casa, era o menino quem cuidava de tudo. Da limpeza da casa, da merenda da irmã, e assim o dia e a infância iam se passando.
       Fiz amizade com os dois e conversávamos da janela mesmo, pois apesar de serem presos pelo portão da vila receberam ordem de não por os pés no lado de fora da casa, assim estando ambos sentados na janela e de pernas penduradas para fora sem tocar o chão não desobedeciam ao pai. E todo o dia lá estava eu a conversar com meus dois amigos, mas era pouco pra mim aquele encontro tão limitado, aquela distância me sufocava. Sem saber do que o pai dos meus amigos era capaz eu convidava-os a dar uma fugidinha rápida, afinal só à noite o homem sério voltava do serviço. Foi então que o menino sendo mais corajoso deu seu primeiro salto para o lado de fora, pisando no chão frio do corredor da vila, e nos juntamos para tirar a garota de cima da janela, a menina sorria assustada. E ambos se sentiram tão livres que sorriam e corriam para um lado e para outro numa restrição penosa. Eu que nunca havia sido preso pelos meus pais apenas me divertia com a liberdade de ambos. No dia seguinte repetimos a dose e tudo era mais divertido. A garota aprendera a saltar da janela numa habilidade selvagem, e saia de braços abertos pro céu rodando até ficar tonta. Sorrindo ela sentia o prazer de está do lado de fora, de sentir o sol macio em seu rosto. Fugida daquela penumbrosa prisão que era o seu lar.
       Um dia quando estávamos brincando no corredor, por acaso o pai do garoto saio mais cedo do serviço e de longe foi possível ouvir sua voz grossa e zangada. Deu um grito de ordem, enfurecido, meus amigos estremeceram e apavorados tentavam subir na janela, pálidos. Até que, assustado com a raiva do pai dos garotos entrei no meu quarto e só o que pude ouvir foram os gritos e as pancadas violentas que meus amigos recebiam do grande monstro. Encolhi-me na minha rede tampando meus ouvidos e sentindo certa culpa. Depois de um longo tempo de terror ouvi o silêncio, e mal consegui dormir ao menos pra fugir de tudo aquilo. No dia seguinte quase não consegui olhar para meu amigo que sentado na janela tinha uma tristeza nos olhos lacrimosos. A garota dormia na cama sonhando. Perguntei-lhe como estava e me respondeu que estava bem. Foi então que comecei a tentar esquecer o episódio terrível. Eles permaneceram por mais algum tempo na vila. A minha casa ficou reformada e voltamos a habitá-la. Um dia eles se mudaram e hoje por acaso lembrei-me deles.  Já faz onze anos que isso aconteceu.
       Quem ama sem doença sabe dar a liberdade que o próximo precisa ter pra ser feliz.
10/11/2010

sábado, 21 de janeiro de 2012

As Consultas de Dona Norinha

        Dona norinha morava no apartamento 343 da Rua Antônio Furtado a um quarteirão de um dos maiores hospitais da cidade de Fortaleza. Morava sozinha. A única pessoa que estava presente todos os dias na casa era a empregada chamada Jéssica que lavava, passava e cozinhava; calma e calada. Era a companhia de Dona Norinha que a sobrecarregava de tanto serviço. A moça chegava cedo e saia na boca da noite pra ir de encontro ao namorado toda cheirosa e trajando um vestido que mostrava as pernas. Dona Norinha advertia áspera: Você trate de chegar amanhã no horário, não posso deixar de tomar meu remédio e você tem que me dar na hora certa! A moça consentia com a cabeça, submissa. No dia seguinte chegava cedo e tinha que ser muito paciente, pois ao acordar, a patroa se sentia altamente estressada, precisava do seu remédio.
       Dona Norinha era aposentada do governo e tinha dois filhos que eram casados e moravam no Rio de Janeiro, precisaram mudar devido ao emprego, ambos eram sócios. Eles bem que tentaram levá-la, mas não quis ir, afinal não trocaria seu lar conhecido e calmo por um lugar que nunca havia morado antes com aquelas pessoas de sotaque diferente. Os filhos tentaram de toda forma convencê-la, mas estereotipada não sucumbiu, disse que Jéssica cuidaria dela e que ficaria bem.
       Sentiu profunda solidão nos primeiros dias em que os meninos se foram, pra ela eles eram ainda meninos. Pensava: meus meninos adoráveis. Estou sentindo tanto a falta deles. Ingratos me abandonaram pelo Rio. Jéssica meu remédio! Logo se acalmava e ia se sentar de frente pra TV para assistir sua novela preferida com aquele ator bonito, lembrava o seu marido quando mais novo. Ah, lembrava do marido e de repente aquele vazio e lhe embalar numa tristeza já antiga. Quanta saudade de Afonso que se foi antes dela, não aceitava esse fato. Mas já fazia um bom tempo que o marido havia morrido e se sentir triste não tinha mais graça, se sentir triste provaria apenas que ela era fraca, e fraca não era! Sempre conseguiu tudo que quis na vida, emprego bem sucedido de funcionária pública, o apartamento dos sonhos, a viagem. Ah, sentia-se cansada, com seus 75 anos, estava cansada. Durante a tarde tirava um cochilo e sonhava com o marido de quando em vez, acordava chorando. ‘’Jéssica já está na hora do meu remédio?’’ O remédio era um tranqüilizante para os nervos que, aos poucos, deixou Dona Norinha dependente. Quando lhe vinha a angústia logo pensava na cápsula que lhe trazia calma e chamava pela criada.
       Jéssica precisava lavar bem os pratos e talheres, pois se Dona Norinha encontrasse um resquício sequer de sujeira, gritava apavorada. Com um tempo ela foi criando uma mania de organização e limpeza detestável. Aos sábados gostava de sair para respirar um ar fresco, sentava na praça que ficava de frente para o prédio, respondia ao comprimento dos senhores, dava uns sorrisos brandos para as crianças que passavam alvoroçadas com sorvete na mão. Ela tinha uma amiga que se chamava Elizabeth e cujo apartamento onde morava era vizinho do seu. Elizabeth era mais nova e trabalhava com fabricação de roupas e outras peças de tecido. Possuía um grande respeito por Norinha. Elas conversavam sobre o passado.
       Uma vez por mês Dona Norinha decidia ir ao centro da cidade comprar tecidos e flores para os arranjos da casa, ligava para seu chofer preferido e amigo chamado Gilberto. Ô seu Gilberto não me venha com atrasos, quero que o senhor esteja às 8 da manhã na portaria do prédio, não quero pegar sol quente. O chofer muito educado e solicito aceitava as ordens e não se atrasava, chegava sorridente abrindo a porta do carro e dando a mão a senhora que subia com dificuldade no automóvel. Esse trânsito caótico; comentava para não perder a chance de criticar, ainda bem que não dirijo mais, e nem posso, já pensou seu Gilberto eu ter que disputar com esses infratores?! Deus que me livre, e sorria breve, com dificuldade. Chegando ao centro, na loja todas as vendedoras já a conhecia. Rigorosa ela analisava os tecidos levando em conta as estampas. Este aqui é para um vestido. Olha, esse dá uma bela toalha de mesa. Este é cafona, não vou levar. E a manhã passava ligeira. Gilberto lhe ajudava com as sacolas, exausta Dona Norinha voltava pro seu apartamento.
       Numa manhã de terça-feira, Jéssica precisou ir ao dentista para extrair um dente que havia dias a incomodava quando comia qualquer coisa. A patroa relutante concordou com a folga depois de muitas explicações e queixas da parte da criada - mas Dona Norinha eu não consigo me alimentar direito, como vou sobreviver sem me alimentar?- A patroa concordou, vá, disse depois de um tempo. O que na verdade Norinha sentia era medo da solidão. Tinha medo de sentir angústia. Por que quando se encontrava sozinha, vinha-lhe um vazio no peito, algo que a deixava piedosa, e precisava se distrair nesses momentos, mas sozinha ficava difícil uma distração eficaz. Antes de Jéssica sair para o dentista, explicou a patroa que o remédio ficaria dentro do recipiente amarelo no armário da cozinha. Norinha escutou e consentiu, vá logo para voltar logo, advertiu. Jéssica desceu pelo elevador de empregados e se foi solta.
       Definitivamente não gostava de ficar só. E se precisasse tomar banho, como secar o banheiro? Sem Jéssica na casa ela se sentia muito vulnerável. A campainha tocou apressada e ela num sobressalto respondeu que já estava indo. Quem seria e o que queriam? Vagarosa, Norinha foi em direção à porta. Era apenas um vendedor de livros que lhe contou uma estória mentirosa, claro, só podia ser mentira toda aquela estória, logo dispensou o moço e disse que não tinha interesse em livros didáticos. Ah! Acho que já devo tomar meu remédio, lembrou-se emergindo de uma nostalgia que a tomava desde que se sentou de frente pra TV, afinal a programação estava tediosa, e Jéssica demorava. Mas aonde Jéssica guardou mesmo o remédio? E num sobressalto levantou rápida e aflita, pôs-se a procurá-los. Vou ligar imediatamente para aquela menina. A moça não atendia. De certo o dentista lhe arrancava neste exato momento o dente de que tanto se queixava. E agora meu deus? E meus nervos como ficam sem os remédios? E começou a vasculhar gavetas, potes, jarros, e nada. Sem obter sucesso na procura começou a se sentir enfastiada, parou na cozinha e ficou de pé estática e silenciosa se concentrando nas lembranças, a mão trêmula: Ah, já sei! Nervosa e completamente ansiosa norinha abriu a portinha do armário da cozinha e retirou, rápida, o recipiente amarelo onde Jéssica guardava alguns remédios. Sacou a cartela de tranqüilizantes e num ímpeto de ansiedade e nervosismo acabou tirando dois remédios de uma vez só e engoli-os rápido, sem água. A casa estava tomada de um silêncio familiar e Norinha após engolir os remédios ficou parada diante do frasco sem pensar, até lhe veio um breve sorriso na boca de dentes postiços, mas foi um sorriso quase imperceptível e fechado que durou apenas dois segundos. Caminhou até sua cadeira de frente pra TV, pôs no programa e logo pode adormecer sobre o efeito duplicado do calmante. Quando Jessica chegou, muito preocupada, pois conhecia a patroa como ninguém e tinha absoluta certeza de que esqueceria o local do remédio, entrou gritando o nome da patroa: Dona Norinha, cadê a senhora hein? A patroa roncava com a cabeça virada pro lado. Quando tocou no braço da patroa percebeu que sua pressão não estava normal e ficou preocupada. Vou ligar para o Doutor Paulo.
       Após a visita do Doutor Paulo, que por pura sorte trabalhava dando plantão no hospital perto do apartamento de Norinha e que lhe receitou remédios para a pressão. Acontece que a patroa de Jéssica começou a sentir, segundo ela, umas dores grandes na boca do estômago e nos ossos. A moça não acreditava em uma só palavra, dizia pra vizinha que era tudo coisa de gente velha que não tem o que inventar aproveita e inventa doença. Mas a patroa insistia.
       -Jéssica não me venha com dentistas amanhã, tenho que ir ao hospital falar com o Doutor Paulo, minhas costas doem e preciso de um novo remédio pra dores, um mais forte.
     
       E diariamente como num expediente profissional Dona Norinha, preocupada com a saúde, ia até o hospital a um quarteirão de seu apartamento. O hospital era particular e cada consulta custava uma boa grana, o que não intimidava a velha. Todos os dias era uma doença maior, mais grave e urgente. A recepcionista de cabelos ruivos amarrados, os fios puxados pra trás com força, olhava a paciente com uma simpatia vinda do fundo de seu profissionalismo e dizia: 
       - Mas Dona Norinha o Doutor Paulo lhe consultou ontem, lembra? Ele passou até um remédio, que por sinal é o mesmo de todas as consultas.
      - Mas minha filha você não entende? Eu estou velha tenho que ver O Doutor. Diga-lhe que estou aqui, tenho certeza que vai me atender, eu preciso ter certeza do que estou sentindo.
       A recepcionista consentia e ia até a sala do Doutor:
       - Doutor Paulo, Sua paciente especial está aqui de novo. Disse que quer outra consulta.
     - Ah meu Deus, de novo Carmen? Diga-lhe que entre, acho que essa senhora na verdade sofre é de amnésia.
       E mais uma vez as queixas, as argumentações da velha. O Doutor ouvia tudo paciente, sorridente, numa simpatia vinda de seu profissionalismo. A paciente voltava pra casa com um sorriso quase fechado. Os que esperavam cochichavam fofocas ruins sobre Norinha - essa velha só pode ser louca - arriscavam. E Norinha se ia andando de vagar a dar observações sobre a consulta a Jéssica, que não escutava nada.
       Numa manhã de sol forte Norinha deu uma folga a Jéssica e não reclamou muito, a empregada espantou, mas ansiosa pra andar pelo mundo foi-se rápida saindo pela porta da rua. A velha se sentia tranqüila nesse dia, sentou-se comendo algumas bolachas açucaradas e redondas, mesmo sabendo do risco de Diabetes. E pôs-se a balançar sua cadeira pra lá e pra cá. Lembrou dos meninos, e sentiu uma angustiante saudade. Olhava o relógio contando a hora para o remédio controlado e foi vendo o dia passar na sua monotonia de sempre. O Doutor Paulo não estava no hospital na quarta-feira.
     Quando Jéssica voltou no dia seguinte se deparou com Dona Norinha dormindo ali tranqüila, e riu baixinho pensando: essa dona Norinha... Cutucou o braço da patroa e voltou rápida pra trás tapando a boca. Ela estava gelada e dura, meu Deus Dona Norinha morreu. O pessoal do prédio acudia a moça que soluçava aos choros. Ao lado da cadeira de dona norinha tinha uma cartela com apenas dois remédios e mais tarde descobriram que por algum motivo a velha exagerou nas cápsulas e não resistiu, o coração parou. No hospital sentiram sua falta. Os pacientes que esperavam na fila gostaram, a recepcionista ficou espantada com a morte repentina e com a causa, e o médico ficou triste, afinal aprendera nessa sua profissão a sentir empatia pelos pacientes. Jéssica ficou com a lembrança e alguns pertences da patroa depois da concordância dos filhos, e se foi por aí com seu namorado e seu vestido que deixava suas pernas de fora. 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O Limiar de Uma Tragédia

      Conheci verônica quando eu tinha uns quinze anos de idade, ainda muito alvoroçado eu era com meus pensamentos loucos da adolescência. Eu não gostava dela. Na verdade minha amiga era sua irmã Tais. As duas moravam uma ao lado da outra, Taís com a mãe e verônica com os filhos e marido. Era uma família aparentemente unida apesar dos conflitos freqüentes ninguém era intrigado de ninguém. Sempre fui uma pessoa de me envolver muito numa amizade a ponto de se tornar um quase membro da família e não tardou para que todos da família de Taís me conhecessem. De início a mãe de Taís se mostrava fechada, sem opiniões, sem sermões, sem sorrisos, mas com o passar do tempo ela foi se acostumando com minha presença e com minha agitação interior e exterior. Havia apenas uma pessoa que não gostava de mim, por motivo que desconheço até hoje tendo vinte anos: Verônica.
       Nós éramos muito apegados, a ponto de termos certo relacionamento amoroso. Apesar de Taís gostar de mulheres ela se mostrou, após um tempo de amizade, interessada por mim e eu havia bastante tempo desejava lhe tocar nos lábios com os meus lábios desejosos de seus beijos. O que me faltava era coragem de assumir a atração que eu sentia, afinal de contas ela me contava de seus interesses por certas garotas e eu engolia seco, aquelas estórias, conformado com nossa amizade íntima. Nós passávamos tardes inteiras juntos. Quando Verônica entrava no quarto de Taís, nos surpreendendo, era normal ela me direcionar xingamentos como: Oi veadinho, como vai? E eu tomado por uma raiva descomunal a mandava ir para o inferno lhe despejando palavras horríveis de tão baixas. Ela me repudiava.
       Taís começou a freqüentar minha casa e conhecer minha família, meu pai não gostava da cara dela, pois era muito fechada, a voz baixa, e apesar de ser alta, morena, se mostrava tímida diante dos desconhecidos. Apesar de manipuladora, vim descobrir esse seu defeito depois de um tempo, sua timidez era na verdade uma astúcia disfarçada, como se ela estivesse planejando algo, daí o silêncio, o mistério. Eu a levava para os passeios que fazia com meus pais na casa de uma tia, meus familiares a olhavam, eu percebia, com certo preconceito. Mas nada disso era algo que abalasse nossa grande amizade que só crescia. Além de sermos andarilhos e freqüentarmos diversos lugares, agente bebia muito. O álcool não podia deixar de estar presente nas nossas festas e farras. Sem contar que nós éramos adolescentes e nada pra gente na época era perecível, agente não temia nada e nós não conhecíamos de certa forma a responsabilidade, momentos bons.
       Taís um dia chegou e me contou que havia conhecido uma garota chamada Samara e  que havia ficado com essa menina, que estava começando a se apaixonar, eu fiquei enciumado, mas ao mesmo tempo fiquei curioso, pois significava uma nova pessoa no nosso ciclo de amizade. Eu não sabia se ficava feliz, ou preocupado. No fundo temia perder Taís pra sempre, temia perdê-la pra Samara, o que não ocorreu. Samara apesar de ter dezessete anos era muito presa pela família e não morava tão perto de nós o que dificultava a relação das duas. Elas iam pra minha casa e namoravam lá, eu sozinho sentia falta de alguém, sentia desejos secretos que não compartilhava com Taís. O que me intrigava era que Verônica aceitava tâmara numa boa, apesar do seu jeito masculino, ela a tratava bem, já eu era sempre caçoado.
       Um dia as meninas resolveram não ir para o colégio, o que se tornou freqüente quase diariamente, e compramos bebidas. Fiquei bêbado e discuti com verônica o que marcou nossa intriga, deixando claro pra todos que nós não nos gostávamos. Dessa vez ela se irritou tanto com minhas sujas palavras que contou para seu marido e para a mãe, o que não foi positivo pra mim, pois eles não conheciam a minha versão da história. Taís conversou comigo, fiquei triste, me senti humilhado, mas passado um tempo lá estava eu socado no seu quarto.
       Num domingo de céu nublado as meninas estavam na minha casa, namorando em minha cama, elas não faziam sexo, pelo menos enquanto eu estava por perto. Eu comecei a me envolver na história das duas, nas brigas, dava sugestões, conselhos, abria o olho de cada uma. Fui me metendo como não deve se meter. E Samara apesar de seu aspecto infantil de menina mimada foi se tornando minha amiga, fui descobrindo coisas em comum entre nós o que nos unia diariamente. Na tarde de domingo nublado, Samara precisou ir embora e fiquei sozinho com Taís. O som tocava um jazz romântico, eu me mantinha deitado com minha amiga a lhe fazer carícias, quando num movimento inesperado nossos lábios se encontram e eu numa mistura de espanto e excitação correspondi seus beijos longos e molhados. Quando terminamos os beijos ficamos em silêncio, não tocamos no nome de Samara e lhe confessei de minha atração antiga. Ela me contou que já teria me beijado bem antes se eu tivesse me manifestado.
       Depois do episódio do beijo, nós freqüentemente repetíamos a sena, mas não demorou para que descobríssemos  que não nos amávamos, agente tinha uma amizade grande e íntima, mas era apenas isso. Porém Samara um dia nos pegou sozinhos e aos beijos, o que causou grande briga entre nós três. Nós estávamos todos bêbados e a única que conseguia ter razão era a traída, afinal se sentia apunhalada pelo amigo e pela a namorada. Lembro-me que demorou bastante para que Samara me perdoasse, mas esquecer ela nunca esqueceu, até hoje me passa na cara numa brincadeira aureolada de verdade.  
       Houve um tempo em que começamos a freqüentar a casa de Samara, seus pais trabalhavam o dia inteiro, e pouco as meninas iam pro colégio, hoje já estão concluídas no ensino, afinal foi tudo uma fase. A casa de Samara era grande, silenciosa, com uma cama de casal disponível e uma parte por ser construída. Várias tardes passamos os três deitados naquela cama de colchão mole. As meninas aos beijos e eu aos papos e carência. Elas me chamavam e eu ia acompanhado de um litro de vinho. Apareceram alguns meninos que me foram apresentados, algumas meninas que me fizeram breve companhia, mas no fim das contas eu permanecia sozinho, ocupando um pequeno espaço do colchão e rolando junto de minhas amigas nas tarde infindas, nos sonhos juvenis.
       Existiu um período de nossa amizade triangular em que a mãe de Taís queria deixar o bairro e ir morar em outro local, o que foi suficiente para nos deixar desesperadamente tristes. E saíamos os três a vagar, sem grana, recursos, mas com uma amizade arrebatadora que nos preenchia em todos os aspectos. Agente vagava pelo mundo, e nós pertencíamos ao mundo sem ambições, nós só queríamos uns aos outros. Chorei muito imaginando uma dramática despedida. Acabou acontecendo de Taís descobrir que não ia embora e nossas lágrimas cessaram enxugadas pelo vento.
        Aconteceram os aniversários, as intrigas, as traições, as fofocas. E os anos foram se passando, eu fui me distanciando. A relação das meninas começou a ficar doentia e o fato de eu ser amigo das duas me punha numa posição ameaçadora, perigosa, ambas queriam ajuda e eu não podia deixar uma de lado. Acabei sendo pressionado pelas duas em segredo, uma queria saber isso, outra aquilo, eu ficava em cima do muro. Sem saber de que lado ficar, e sem suportar a doentia relação que as duas criaram com ciúmes excessivos, com atitudes manipuladoras, com chantagens, eu fui me distanciando, fui conhecendo outras pessoas. Até que chegou um dia em que esqueci o aniversário de Taís e ela se magoou comigo, por ser muito apega a datas comemorativas, ela percebia minha distanciação calada.
       Agora, cinco anos depois, as duas continuam minhas amigas. Taís trabalha, estuda, e vive bem com sua namorada que não conheço. Agente foi se afastando aos poucos e chegou um momento em que não nos conhecíamos mais como antes, eu havia mudado, ela havia se transformado em mulher, eu amadurecido, e Samara depois de muita relutância conseguiu acabar definitivamente o relacionamento, começou a trabalhar e se expandiu pelo mundo a fora a procura de novos amores, de novas fobias.
       O que me intriga é Verônica que hoje me trata com tanto amor. Na época de minha grande amizade com sua irmã, quando ela possuía uma família bem constituída, tinha a cara fechada, e sorria debochada. Atualmente quando passo na rua e ela me ver, grita meu nome, me chama atenção com um sorriso aberto, amarelo. Até um abraço ela me deu. Hoje, quando exausto eu voltava do trabalho num coletivo lotado ela me chamou o nome: Ricardo. Eu respondi com um sorriso e ela foi logo falando: Eu vou ter que resolver o problema da loja. Estou me separando e tenho que registrar minha firma. Ricardo, estou perdendo meu marido pras putas. Pude ver a tristeza em seus olhos, sua voz era abafada e surda. Esforçava-se para que a voz não falhasse.  Ele se tornou tão diferente depois que conheceu duas mulheres que atualmente trabalham com ele na outra loja, meu filho mais velho ficou do meu lado e ele disse que o desprezava por isso, você acredita? Ele deixou a igreja, vai só por ir, não ama mais. Ele está sendo vítima de macumba, gasta dinheiro com bobagem e não faz um investimento. Pelo menos vou ficar com a loja lá de casa. Ele me bateu na cara, fiquei com o rosto roxo, vou levar um boletim de ocorrência que consegui na delegacia pra audiência.  Resolveu me deixar pelas vagabundas, e duas logo. Preferiu passar o aniversário dele com elas do que com a família. Saímos do ônibus, eu comovido com a vida dela, ela muda. Dei-lhe um abraço e ela beijou meu ombro, eu lhe disse que ia conhecer um homem bom e lhe pedi que ficasse bem. Seguimos os nossos caminhos, de volta pra casa.
       

sábado, 25 de junho de 2011

A Fila


     A fila cresce rápido, em minutos, pessoas impacientes formam a grande fila para entrar no grande e esperado ônibus. As pessoas se impacientam. Algumas escutam música com fone de ouvido, outras compram salgadinho do vendedor ambulante, a criança assanhada e gripada pede à mãe que compre um pacote de jujuba. E as horas passam vagarosas, e a tarde vai escurecendo. De repente é noite, há quinze minutos esperam estressados os passageiros. A aglomeração agora se torna medonha aos olhos dos velhinhos que esperam moribundos na fila preferencial. A grávida coça a barriga, os olhos fundos, cansados e desiludidos. Chega uma garota de cabelos amarrados e volumosos, cheia de livros grossos nas mãos. Está com mais três meninas franzinas que mal são percebidas. A menina do cabelo amarrado é a líder. Ela conta estórias arregalando os olhos e gesticulando com uma mão só, enquanto as outras escutam com um olhar de baixo pra cima, submisso e atencioso. Eu me encontro no meio da fila, nem tão perto, nem tão longe. Espero conformado, meio sonâmbulo e faminto. Venho do trabalho, do sol. Agora as conversas soam altas, os moleques planejam furar a fila. Alguns trabalhadores exaustos e queimados de sol resmungam palavras quase imperceptíveis, como se tivessem um calo na língua. Mas nada do que está acontecendo é um drama, mas sim vida. É uma parte da vida que está acontecendo. Os ônibus chegam lotados e saem lotados, essa é a hora de voltar pra casa, e todos que estão no terminal desejam a mesma coisa, numa ansiedade de loucos. Quando de longe alguém avista no letreiro de um coletivo o grande nome do seu bairro, o que significa que seu ônibus chegara. E se forma a bagunça. A fila que até então era bem formada, agora perde a direção, e a grande quantidade de gente querendo entrar ao mesmo tempo por uma única porta faz com que o sufoco aumente. O calor é grande, a pressa maior ainda. A hora de entrar é a mais delicada. Todos impulsivos inclinam o corpo pra frente e o atrito entre corpos começa. Eu, numa estratégia bolada, me esquivo um pouco dos empurrões e consigo entrar ileso. Mas quando estou bem próximo da porta, aí é diferente.         As pessoas apressadas, agoniadas, empurram quem está à sua frente, e eu próximo da porta sou levado como por uma onda e se caso quisesse voltar não conseguiria. E as cadeiras são ocupadas num piscar de olhos. No momento exato da entrada existem duas mulheres na frente, uma mais apressada que a outra. A porta se abre e todos tentam entrar ao mesmo tempo. Acontece que as duas mulheres que esperavam o momento de correr para o interior do transporte agora lutam para uma entrar primeiro que a outra, o que deveria acontecer sem nenhuma cerimônia ou intervenção, se a fila fosse respeitada e organizada como deveria ser. Mas as pessoas estão preocupadas em garantir o seu lugar no coletivo. Depois que está dentro aí o alivio se manifesta, o roto de cada abranda, silencia. As duas tentam entrar, mas como há um ferro que divide a entrada em duas, as mulheres não conseguem passar pela mesma entrada e se atritam, mas a mais impetuosa num impulso entra e segue na frente se lançando para o interior. Ela é mais baixa e tem cabelos amarrados, deve ter seus trinta e sete anos. A mulher que ficou pra trás furiosa, se excede e num descontrole taca a mão na cabeça da outra, a mão aberta. E a abriga começa. A outra revida com um pequeno empurrão, mas recua, a mulher que começou é descontrolada e não mede os próprios atos. Eu estou sentado lá no fundo observando a guerra entre os ansiosos. Houve gritos, vaias, e todos quiseram assistir um pouco mais da briga que se deu na porta do coletivo. A mulher que bateu na outra agora fica falando alto: ela me empurrou essa louca, me empurrou e apertou meu braço contra o ferro. Já começando a sentir a culpa, o arrependimento, tenta argumentar ao seu favor, mas já está feito. O transporte segue seu caminho e o motorista não sabe nada do que está acontecendo, ele apenas nos leva de volta para casa. Exaustos, cada qual para no seu ponto e desembarca com o rosto erguido, seguindo numa nova direção. 

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Solidão

       Um emprestava-se ao outro. Por que ambos eram carentes e sentiam uma profunda solidão. O amor era isso pra eles. Um queria beijar e outro queria abraçar, e assim reciprocamente sentiam-se quase completos. Uma semana era o prazo pra que se encontrassem, durante o período que passavam longe um do outro se falavam por telefone num compromisso diário e noturno. Diziam sentir saudades longas e largas. Marcavam um encontro. E numa falsa e cansativa ansiedade esperavam o dia marcado chegar. Comentavam sobre os beijos que viriam e sobre os abraços que dariam. E assim iam preenchendo as horas sem fim e sustentando uma paixão quase forçada. Mas gostavam-se um do outro sim. Quando ocorria o beijo os corações descompassavam-se numa batida louca de incerteza e satisfação. Dentro do ônibus à caminho do mar ambos se olhavam indiscretamente, os olhos brilhantes, e secos de quando em quando. O corpo quente à espera do contato afinal. E olhavam-se num quase desejo real. Por que às vezes parecia que ambos inventavam uma paixão. Inventavam um interesse. Mas era tão bem inventado que se tornava bom e aconchegante quando se tocavam. A mão boba, solta e atraente, querendo pegar no rosto, na boca e nos cabelos do companheiro. A boca querendo beijar descontrolada e só. O olho. Mas o olho não negava o que se passava por dentro dos pensamentos, no íntimo dos desejos.
-Por que você me olha assim? Perguntava impaciente e feliz.
-Nada, não posso te olhar?  Ou você prefere que eu olhe para outras pessoas?
       Ficavam felizes. Tocavam-se secretamente. A ponta do dedo tocando a mão do companheiro já era uma aproximação reveladora de grandes desejos e sensações.  De longe uma pessoa espiava a vida dos dois. Uma mulher magra e suja, triste com seus cabelos assanhados e sua boca de poucos dentes. Olhava num deboche maligno e cruel. Como se soubesse do dia exato em que terminariam um sem o outro. A grande solitária amaldiçoada era ela sentada a coçar a cabeça numa postura de bruxa. No fundo sentia inveja do amor dos dois. Sentia angustia de ser só. Era mais uma vida solitária e desgraçada. Os cabelos revoltos no seu engodo. O ônibus seguia em frente sacolejando os apaixonados. Vinicius pensava amar, mas de quando em quando parava e olhava a companhia e desinteressava-se por ela de súbito, como numa loucura. Por que desgostava assim tão de repente? Por que não era pra sempre? Indagava-se sem querer, sem prestar atenção na própria indagação.
- Vem, vamos sentar.
       Uma perna triscando na outra. Um desejo crescendo sem querer. Sentados esperavam ansiosos o momento em que iam se abraçar, o momento do beijo desesperado e sufocante. Esperavam numa impaciência dissimulada e mortal.  Vinicius era o centro do relacionamento, pelo menos era o que pensava. Ficava calado, devolvia um sorriso e sentia o coração batendo muito de leve quase sem paixão. Tatiana o olhava com ternura e rapidez como que só pra ter certeza de que realmente ele estava ali, como se um medo ou uma insegurança muito forte a fizesse imaginar que inventara a presença do amado, mas não, ele realmente estava ali. Tocava-lhe na mão, com muita cautela e silêncio como se fosse um crime gostar.  Sentia um orgulho e vitória. Vinicius olhava pro lado de fora da janela, quase distante, quase sozinho. O ônibus deu uma freada brusca e ambos foram pra frente, sorridentes e acordados.
       - sempre esses motoristas dão essas freadas agressivas, eles acham que vão levando animais dentro do ônibus. Comentara Tatiana satisfeita por ter o que dizer.  Vinicius assentiu com a cabeça desviando o olhar e pondo um fim no sorriso. No fundo ele sabia que o relacionamento não vingaria, ele pressentia conformado, mas ao mesmo tempo preocupado.
       Nos bancos da frente velhos conversavam auto e sorridentes, as bocas banguelas. Os namorados olhavam. Não havia mais o que ser dito. Ela sentia a presença, mas se incomodava com o silêncio, tinha a sensação de não está do lado da pessoa amado com toda aquela falta do que dizer. Ele olhava pro lado, pro piso do ônibus e pensava- temos que chegar logo, pelo menos assim nos abraçaremos e não ficaremos tão preocupados com a falta do que dizer- davam sorrisos amarelos. Era o fim. Sim, Vinicius pensava sem tristeza, aquela seria a última vez que sairiam juntos. Tatiana calada, agora ficava séria como num pressentimento ruim. Ele perguntava:
       - O que foi? Por que você ficou calada, assim tão de repente?
       -Nada. É que eu gosto de ficar escutando você. Gosto da sua voz, e ás vezes entro em transe, numa meditação doida.
       Enquanto estavam juntos, já de tarde e sentados um ao lado do outro o tempo ia passando ligeiro e impaciente. Vinicius bebia rápido uma cerveja pra que talvez o álcool amolecesse seu coração, fazendo um esforço pra gostar de Tatiana que estava ali a beijar sua boca. Tatiana tinha a pele branca, a boca parecia um botão, era mais baixa que ele e mais audaciosa. Fora ela quem o procurou, ela roubou-lhe um beijo na primeira vez em que ficaram. E sua audácia foi seduzindo Vinicius que ria sozinho lembrando os beijos roubados. Mas ele não admitia uma paixão tão fácil assim. Como se apaixonaria por Tatiana? Como? Preocupava-se.
       A tarde já chegava ao fim e ambos se adiantavam na volta pra casa. O mar revelava-se em ondas fortes e brancas que se quebravam já na beirada. Uma onda assustou um banhista que quase se afogou. Os dois procuravam o sol que estava se pondo escondido entre as barracas da praia. Vinicius um pouco ébrio abraçava Tatiana como numa última despedida, mas o abraço era ligeiro e seco. Os beijos já estavam monótonos e insípidos. Ambos sentiam que já estava morrendo a remota paixão do começo. Seguiam o mesmo ritual de sempre. Voltavam pegando um ônibus que dava uma grande volta por alguns bairros da cidade, e chegando num determinado ponto se despediam muito rapidamente, como numa fuga. Mas dessa ultima vez, foi mais rápido ainda, foi sem tristeza nem saudades, sem choro.  Olharam-se, Tatiana com olhos baixos e miúdos, Vinicius com olhos risonhos e boca fechada e numa diabólica sincronia disseram: tchau! E a única coisa que sentiam era incerteza. Quando um abraço rápido os separou.   
       Já voltando pra casa Tatiana dissimulava com breves sorrisos a certeza que sentia dentro de si: que estava acabado. Por mais que se encontrassem outra vez, se abraçassem ou se beijassem estava acabado, ela apenas não queria aceitar, mas sem dor. No fundo só não queria se sentir inteiramente só.
      Vinicius sentia-se aliviado, e agora seguia para um compromisso com os amigos, tranqüilo, sozinho como sempre fora e como sempre soubera ser. Talvez o destino colocasse Tatiana em seu caminho apenas para que visse que estar sozinho não era tão ruim como julgava, pensava com um ar de sábio, como se tivesse descoberto o segredo, e descobrira de fato.  Agora era só dizer que não dava mais certo e ambos seguiriam seus rumos.


O amor também pode ser efêmero... 

domingo, 28 de novembro de 2010

Um Dia Especial.

       Como era bom acordar no dia de seu aniversário. Despertou cedo como de costume, mas numa exaltação, num sobressalto de ânsia feliz. Lavou o rosto e escovou os dentes que eram metade postiços. E enquanto todos dormiam, ela fazia em seus pensamentos uma breve e orgulhosa retrospecção do que vivera e algumas idéias sugiram-lhe na cabeça em relação ao futuro. Preparou o café e agora esperava os primeiros telefonemas. Esperava atenta. O telefone tocou e ela se levantou meio sofrida e atendeu. Era o primeiro telefonema do dia e quem lhe desejava um ótimo aniversário e muitos anos de vida era a filha caçula, que sempre foi a mais bajulada, e que foi a primeira a sair de casa. Então voltou e sentou-se. Como era bom se desprender do trabalho no domingo. Pensava orgulhosa. Vou almoçar fora, e riu alto, escondendo os dentes com a mão, olhando para os lados para que ninguém a percebesse assim. Olhava para máquina de costura ao lado, um olhar cansado e conformado, quase comovido, por que era ali sentada que passava grande parte de seu tempo tentando atender a todas as encomendas que a faziam. Sentiu sede e se levantou, caminhou até a geladeira e enquanto isso olhava as paredes bem pintadas, os móveis polidos, as taças intactas. Tudo sem esquecer o almoço. O marido no dia anterior havia marcado de irem ambos almoçar num restaurante caro e bem visto pela cidade inteira, e ela quase sem nunca ter saído de casa pra esses lugares se alegrou tolamente. Pensava no que ia pedir quando o garçom trouxesse-lhe o cardápio. Pensava com que roupa iria, ficava em dúvida, e ria-se da dúvida, pois ainda era vaidosa, percebia, mesmo com 51 anos era vaidosa. De repente escutou ruídos vindos do quarto, caminhou até lá numa curiosidade tensa. Era o marido que abria os olhos devagar, preguiçosos. Remexeu um pouco na cama, enquanto ela de pé esperava os parabéns com os olhos secretamente felizes. Mas eis que o marido lhe desejou bom dia e não lhe parabenizou. Ficou nervosa, tentou encontrar um motivo, ele deve está brincando comigo daqui a pouco ele vai dizer: Como eu poderia esquecer seu aniversário? Vamos até almoçar fora hoje! Pensava tentando se controlar. O marido levantou-se, tomou café e ficou a olhar o chão quase dormindo. Foi então que margarida entristeceu-se, conformou-se com o esquecimento de seu homem. Sentou-se de frente pra máquina de costuras e se pôs a trabalhar. Como era bom trabalhar! Essa foi a forma que encontrara para fugir do mundo que a esquecia de vez em quando. Lá, sentada de frente pra máquina pensava, pensava. Mas não era culpa do marido esquecer. Já era velho e a memória gasta falhava freqüentemente. Foi então que repentinamente veio-lhe em mente a data. Ficou nervoso, como explicaria? Como fingiria que não esquecera de fato no início? Resolveu falar a verdade. Caminhou até a máquina e arriscou:
       - Querida me desculpa por eu não ter lembrado assim que acordei ta?! Você sabe que essa minha cabeça não funciona mais como antes e vivo esquecendo certas coisas, mas nosso almoço ainda está de pé não é?
       Os olhos de margarida cresceram de entusiasmo e alegria conformada. Disse que tudo bem, não tinha importância, afinal ele não esquecera completamente. Ficou esperando sem saber o que fazer para que o tempo corresse mais rápido, ficou esperando o meio dia. Queria sair na rua e ver gente. Foi aí que começaram a chegar alguns familiares no intuito de homenageá-la.  E assim logo veio à hora, faltavam quarenta minutos para o meio dia. Entrou no quarto silencioso e só por dentro era possível sentir a batucada do coração. Abriu uma gaveta muito bem envernizada e tirou uma caixa onde guardava alguns cordões e anéis de falso ouro e falso brilhante. Escolheu um par de brincos e numa sutileza de adolescente se pintou. Colocou um vestido discreto de um branco florido. E perfumou-se levemente com prazer instantâneo. Depois de pronta e o marido vestido caminharam até o carro e adentraram no lado de fora da casa. Estava no lado de fora! Pensava com intensa liberdade e júbilo. E enquanto levemente o carro seguia, ela se assustava por ter ficado tão isolada. Observava com pura curiosidade as mulheres que caminhavam na rua indo pra lugar nenhum, mas caminhavam tão soltas, tão livres. E lembrando a máquina de costura sentiu angústia, quase entristeceu. Olhou para o marido que concentrado dirigia, sério mais de uma doçura que só ela conhecia.
       - Vamos para um restaurante que fica de frente para o mar.
       Quase não acreditou no que ouviu. Estava intimada. Ficou nervosa e feliz. Não sabia discernir ao certo o que sentia. Mas era bom saber pra onde ia. Era muito bom saber que sentiria o cheiro do mar. Sentaram-se um de frente para o outro e do lado esquerdo de margarida eis que a sublime perfeição quebrantada em espumas exalava maresia. Sim ela estava ali, não era sonho dessa vez. Ela estava à mercê de um vento forte e de um ar tão puro que ficou meio desengonçada. Depois que almoçaram, ficaram em silêncio numa tristeza amena de quem come em exagero. E olhando as ondas vorazes, as ondas que se desmanchavam nas grandes pedras, ela sentiu-se como uma onda. Ela sentiu-se tão grande quanto o mar e tão voraz que engoliria a vida num só trago. E a idéia de que mais um ano viria encheu-lhe os pensamentos. As expectativas começavam a se formar.
        O dia terminou para margarida num parabéns familiar e coletivo, onde abraços eram o seu aconchego e beijos o maior gesto de afeto. Adormeceu exausta de tão feliz. No dia seguinte levantou-se cedo demais e se pôs a costurar, ligeiramente e ágil como um bicho, costurava.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Uma Vida Simples


        Sua casa não tinha paredes rebocadas e o chão era sem cerâmica mesmo, mas tudo de uma rusticidade tão aconchegante que amava viver, comer e olhar a vida da filha, que ia crescendo e se tornando uma    mocinha muito educada e desenhista. Chamava-se Verônica e todos os dias acordava muito cedo para que Sofia não se atrasasse na escola. Os cabelos assanhados e já conformados com a cor alva esvoaçavam-se por conta do vento que soprava entrando pela varanda sem cadeiras e sem nada. Tinha consciência de como era pobre em relação a coisas materiais, mas não se desesperava, pois ainda tinha uma carta na manga. Seu talento de vender, de ir ao banco tirar um extrato ou fazer um depósito, mínimo, mas não deixava de ser um depósito.  Além do mais conservava muito nítida a esperança de ter uma loja grande e sortida que ficaria para a filha como um seguro de vida. Sabia que ia morrer antes que a filha, pois já era velha. Pensava: tenho quase cinqüenta, e ria muito briosa com os dentes inferiores pra fora e mal alinhados cujo concerto ficou pra nunca mais. E pensava no marido com um amor tão infantil e desesperado, sentia um aperto no peito como se o dia fosse o último de sua vida. Usava um short Jeans muito antigo e esgarçado cuja lavagem tirou-lhe a cor azul. Agora possuía uma cor nebulosa de inverno que vem chegando. A blusa apertada deixava bem clara a falta de seios fartos. Quando Sofia nasceu ficou muito preocupada, tivera pouco leite, e precisou pedir ajuda na maternidade. As enfermeiras falavam mal de sua aparência e ela num desdém insignificante e fraco fingia que não ligava e que até mesmo não sabia.
       Mas verônica possuía algumas amigas sim. Afinal como trabalhava vendendo de porta em porta, precisava conhecer muita gente pra fazer seu dinheiro aumentar e por isso era muito educada, dando bom dia e boa tarde pra quem passava. Mesmo assim não gostava nem um pouco da vizinhança que observava sua vida só por que gostava de ser conservada e não tinha amigos para farra ou coisa do tipo, não era uma libertina. O marido mesmo não bebia e nem fumava. Ah, um homem muito bom, pensava, e tão insubstituível que não lhe passava pela cabeça arranjar um amante. Nunca! Era feliz com o homem que tinha e ambos freqüentavam cultos religiosos onde verônica se sentia casta e filha de Deus. Mas de quando em quando verônica acordava irritada e chantagista. Disposta a berrar palavrão para quem quisesse ouvir por que a lama enlodada invadia sua calçada a cada dia, mais e mais. E num susto infantil e supremo de cego que volta a enxergar, mas descobre que está tudo diferente e que preferia a falta de visão a encarar o que se ver. Ela num susto via a água suja e parada só se espalhando silenciosa e fatal e tinha impressão de morar numa sarjeta quando o cheiro ruim subia. Os vizinhos cochichavam e falavam na sua cara que a lama estava muito concentrada. Ela desdenhava angustiada e ofendida, mas no fundo sabia que era verdade e que já não podia fingir morar num palácio com sua filha princesa que só engordava de tanto comer doce com creme de leite e beber água pra matar a sede. A televisão grande e moderna era o grande contraste do quarto miúdo e indiscreto. Um quarto sustentado não por paredes, mas pelo amor que sentia por Paulo.
       Um dia depois de deixar a filha na escola foi ao banco pra fazer um depósito muito pequeno, e enquanto caminhava sentiu um toque no lado esquerdo do seu ombro. Era uma velha decrépita que clamava por ajuda, pois não conseguia atravessar a avenida por conta do grande número de carros velozes que tirariam sua vida se atravessasse sozinha. Ela resolveu ajudar, e aproveitou que a avenida estava livre. Ia puxando a velha e guiando-a, mas de súbito sentiu uma vontade negra e muito pontiaguda de jogar a velha no chão, de soltá-la e correr, deixando assim uma vitima de atropelamento. Um desejo de fazer o mal. Deu um breve sorriso malicioso e imperceptível. Por que pensar em fazer esse tipo de coisa? Perguntava-se culpada e medrosa. Não nunca faria tamanha crueldade. A senhora beijou-lhe as mãos com uma boca engelhada e sem lábios, melando sua mão com um pouco de saliva. Verônica ignorou e se despediu sorridente e avoada. Diariamente visitava o banco mais próximo de casa para juntar pequenas quantias de dinheiro com o intuito de reformar a casa e os cabelos.  Mas sua vida era tão corrida na sua lentidão. Ela irritava qualquer um por ser muito lenta. Demorava a tomar decisões mais sérias e nunca se precipitava, nunca arriscava sem antes estudar a proposta ou a hipótese. Era feliz na sua pobre astúcia.