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quarta-feira, 11 de abril de 2012

Rodovia Administrativa

       A avenida é um mundo nosso. Só nosso. Onde agente lembra e esquece coisas que só os quilômetros nos faz lembrar, nos distraindo. E a imensa lagoa onde passamos todos os dias abriga pescadores que lançam redes imensas como a vontade que os consome de pescar. A lagoa reflete o dia do céu, e a lua da noite. Lagoa silenciosa em seu tremelique contínuo de água ventilada.
      Sempre olho a lagoa e em minha mente se passa um filme calmo, talvez um romance entre um garoto e uma lagoa. Talvez uma atração descomunal por águas vastas e paradas, eternas. Águas rasas e repentinamente profundas.
      Acordei cedo para a realidade do dia. Na cabeça o compromisso, no cabide a roupa passada, lavada, antiga. Vesti-me com muito prazer, e fui me montando para o trabalho. Óculos escuros contra a claridade exagerada de fim de Março, fim de mês. Lá fora o vizinho indo comprar a galinha para a família que passa e fingi não me ver, me vendo todo. De quando em vez vemos alguém tão completamente que fingimos não ver. A rua esburacada a receber as rodas aceleradas dos automóveis decididos. Um automóvel decidido é uma pessoa decidida. As pessoas dormindo acordadas.
      O sol das nove da manhã a cegar os óticos problemáticos. Setenta por cento de problema de vista no olho esquerdo. Lá no fundo do coração um problema: indecisão explícita. Querer algo que se quer e não querer ter a certeza de que se pode ter. Confusão familiar. Acordei sorrindo de minhas próprias conclusões autênticas. Conclusões precipitadas.
      Fui andando vestido de jeans firme, blusa de botão, perfume doce amaderado caminhando em direção à improvisação. Ônibus improvisado. Minha voz era doce e firme, meus passos eram leves e certos. A cabeça erguida de confiança. Passageira confiança. Passageiros passos firmes. A fumaça do incenso na noite anterior a entorpecer a sala inteira, a expandir o aroma de rosas vermelhas.
      Já na porta de entrada a pergunta: para onde devo ir. Resposta: vá direto, dobre à esquerda do banheiro e leia: Administração.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Diário de uns dias passados.

       A chuva ameaçou cair novamente quando acordei para a manhã. O céu nublado me enchia de esperanças. Esperava eu uma chuva como no dia anterior que me deixasse em casa coberto por lenços. Quando o relógio marcou oito da manhã resolvi me levantar e fui para minha primeira aula de teatro no Teatro José de Alencar. As aulas começaram ontem, mas devido a grande chuva que deixou ilhada muita gente, achei melhor faltar. Ontem a chuva que caiu inundou muitos pontos da cidade. Carros ficaram parados na rua alaga. Teve gente que perdeu móvel. Teve gente que não foi trabalhar. Foi um temporal que começou na madrugada e só parou na tarde. Quando deu umas quatro da tarde o sol apareceu com seus raios a atravessar a porta da sala. Fui para o teatro debaixo de um céu carregado de nuvens escuras, premeditei uma chuva fina que caiu durante algumas horas.
        A primeira aula de teatro foi maravilhosa. Cheguei meia hora atrasado e percebi a seriedade que envolve meu professor e a grande sinceridade na sua busca de transformar aquelas pessoas que estão ali a lhe ouvir em verdadeiros artistas. Não pude explicar a turma o porquê de eu ter me interessado pelo curso, o quanto amo a arte, e o meu objetivo. Ao entrar na sala fui logo me juntando a um dos grupos que já estava formado e tivemos que improvisar uma peça de quinze minutos. A peça foi boa, não me acanhei. Amanhã farei uma breve apresentação individual e estou muito confiante. Quero muito continuar participando das aulas, pois me sinto ligado ao que mais amo: a arte.
        Senti uma dor de cabeça e tomei um remédio que a amenizou. Tenho me preocupado com o meu desempenho no trabalho, com minha vida profissional no ramo que atuo no momento, mas me sinto mais tranqüilo se comparado ao passado. Sinto-me mais capaz de conseguir um emprego melhor caso saia desse atual. E temos que confiar em nossa própria capacidade para crescemos.
         Ontem fomos comer camarão, eu e minha galera. Bem próximo do mar. Pude pisar na água gelada e sentir o mar me acariciando os pés. No domingo tomei banho no mar. Eu desejava mergulhar por entre as ondas vastas do mar mesmo em sonho. Era um desejo tão profundo que passei a sonhar e me sentir realmente dentro d’água. Domingo foi um sonho realizado. E hoje também.

terça-feira, 6 de março de 2012

Papo Diferente

   Foi ao chegar no barzinho que me acalmei. Esperando já a mais de uma hora eu já me sentia completamente aborrecido. Meus amigos me asseguravam que estavam por chegar, com menos de dez minutos estariam na praça. Mas estando eu ansioso e nervoso resolvi tomar uma cerveja. Quando entrei no bar veio uma criança me seguindo decidida. Tratava-se de um menino de cabelos castanhos claros e que cobria suas orelhas. Pedi uma cerveja ao dono do bar e sentei na mesinha de frente pra rua. O garoto veio até mim e me perguntou: Ele é seu amigo? Apontando para o dono do bar. Eu respondi que sim por pura educação, pois o dono do bar, que por sinal nãos conheço nem o nome, não é meu amigo, apenas me serve e eu lhe pago. O dono do bar é senhor já de cinqüenta anos, que carrega uma careta mal encarada e não nos ouve geralmente quando a cerveja seca ou quando precisamos de um novo copo. O dono do bar parece não gostar do trabalho que faz. O garoto moreno claro puxou a cadeira sem que eu o convidasse me demonstrando uma atitude muito ousada. O garoto me pareceu ser parente do dono do bar, mas ao sentar fiquei na dúvida. O garoto perguntou meu nome e lhe respondi simpático, paciente. Foi então que começou a me perguntar coisas vindas de uma mente curiosa infantil e doce.
      - Como è uma cama de solteiro? Fiquei espantado com a pergunta desconexa e lhe respondi que se tratava de uma cama pequena onde só dorme uma pessoa, onde repousa uma pessoa que geralmente vive sozinha no seu quarto ou casa.
      O garoto ficou sentado e se mostrava comportado. Então uma cama grande é para pessoas casadas, concluiu o menino. Perguntei-lhe com quem ele estava, fiquei até cabreiro pelo fato de seu responsável não ter ido até a mesa buscá-lo. Ele apontou para umas pessoa que bebiam e conversavam no balcão lá na frente do barzinho, estou com minha mãe, me disse.
      - Você tem namorada? Novamente o interrogatório.
      - Não. Sou solteiro. E aquelas perguntas vindo de uma criança me deixava um pouco sem graça. A Treze de Maio estava movimentada e as pessoas passavam olhando, apressadas.
      - As crianças podem ficar aqui? Eu acho que não, pois só tem eu de criança aqui, e só vejo gente adulta.
      - Bem, acho que as crianças só não podem beber aqui. Ele me olhava com atenção, escutando minhas respostas. Fui lhe fazendo algumas perguntas, mas logo percebi que se tratava de uma pessoa que não era muito de responder, e sim de perguntar. Aceitei.
      - Meu nome é Natham. Eu moro com minha mãe. Você já é adulto? Quantos anos você tem?
      - É eu já sou adulto, tenho vinte anos. E você quantos anos tem? Hum... oito anos é uma boa idade. Chegou um momento em que as perguntas cessaram e o menino desviou o olhar para a rua como se perdesse num pensamento triste. Fiquei impaciente, mas não deixava isso transparecer. Enquanto isso, as pessoas que deveriam estar cuidando do garoto não manifestavam nenhum tipo de preocupação. Ele permanecia na minha companhia.
      - você é veado? Ele me perguntou. Fiquei encabulado com a pergunta e lhe respondi que não. A minha intimidade não importava àquela ousada criança.
      - Você conhece alguém assim? Perguntei e ele apontou para os rapazes que faziam companhia a sua suposta mãe.
      E quando eu não esperava já envolvido por uma leve embriaguez diante dos copos absorvidos de cerveja, meu amigo aparece alto e de repente diante do meu mais novo amigo Natham. Eu lhe forneço um sorriso e lhe apresento para o garoto que logo demonstra desaprovação para com meu amigo que eu esperava. Fábio este é meu novo amigo Natham, e ele indignado com algo que eu desconhecia respondeu aborrecido que seu nome não era Natham. As pessoas que deveriam estar cuidando do garoto saíram do bar e ficaram atrás da parede do barzinho de forma que eu não podia vê-los, e o garoto permaneceu na mesa conosco. Estranhei, achei que ele teria me enganado sobre sua mãe, e seu rosto agora expressava um princípio de choro. Por um instante achei que o garoto estava perdido, e que inventara que sua mãe estava por perto, mas uma voz feminina gritou seu nome ordenando que a seguisse. O garoto se foi com raiva de mim, e não me disse tchau. 

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Trambique

        Está tendo uma confusão aqui pertinho da minha casa. Da sala era possível escutar muito nítida a voz de uma mulher furiosa e certa de si. Ela alega com raiva contida não ter comprado nada ao galego. Fala em alto e bom som que espera pela chegada dele, ansiosa para um esclarecimento. Diz:
       -Pois o seu Luiz está ficando é doido. Eu quero saber quando foi que eu comprei alguma coisa dele pra ele ficar mandando você vir aqui me cobrar. Ah, mas ele que me há de pagar. Cadê, cadê o seu Luiz que eu quero falar é com ele.  O homem magro e calado que observa numa seriedade irônica responde rápido.
       -Pois foi o seu Luiz que mandou vir aqui cobrar à senhora.
A mulher arregala os olhos, treme de raiva, e gritando com mais esforço ainda, retrucando:
        -Pois o senhor diga para o seu Luiz que ele venha falar diretamente comigo, pois a única vez que eu comprei alguma coisa dele foi uma rede e já está paga há muitos anos. Ah, mas o seu Luiz está ficando é velho, ou doido.
    Essa pequena confusão que gerou grande alvoroço na rua, divertiu bastante os telespectadores de ouvidos afiados. E formaram-se os rumores. E desabrocharam-se as risadas mais diabólicas. A fofoqueira mais experiente orgulha-se, e gargalha mais alto que todos.  E já é de noite. A mulher fumando e rindo, antiga e respeitada. Alguns sons de motos em alta velocidade e alguns passos apenas. De repente o céu aparece com algumas estrelas. E a mulher esbraveja:
       -Deixa só ele chegar, deixa só ele chegar...
Um homem muito envolvido no boato rebate com uma resposta intrusa e fulminante:
       -Deixa de ser trambiqueira mulher, paga esse homem.
O homem riu-se e o resto da rua o acompanhou, num riso coletivo.



sábado, 4 de junho de 2011

Pequeno Resumo Sobre Lorena

Caminhava rumo ao trabalho, como sempre os pensamentos a lhe embaralhar numa ansiedade de quem é jovem. Ansiava momentos, e assim as horas iam marcando a sua vida.
       Resumo sobre Lorena.
       Ela se indagava muito. Lorena ás vezes parava diante de uma dúvida: viver é assim? Perguntava-se confusa. Sentia uma dúvida estúpida a respeito de o seu próprio viver. Viver é agir dessa maneira? Perguntava-se preocupada com a resposta. Mas numa brisa repentina seus cabelos eram levados, eriçava-se, sorria sozinha, alegre. De quando em vez a vida se tornava clara, sem precisar de indagações ou conceitos mais concretos. E seu andado rápido a levava exatamente aonde queria ir. Isso era magnífico, ir até aonde quer chegar. Descobriu que a pessoa chega até aonde deseja, teoricamente isso já era óbvio, mas agora sentia dentro de si uma coerência suprema. Entender para Lorena não era um ato considerado simples ou normal, entender deixava Lorena vigorosa, oscilante. O bonde corria. Não se espantava mais como antes. Olhou para o lado de fora da janela procurando se espantar com alguma cena e viu um cachorro com a cara enterrada num saco de lixo comendo, alvoroçado, uma carniça. Por que se espantaria? Não encontrou o motivo. Virou o rosto para a parte de dentro do bonde. Tinha muita gente calada ali dentro, isso a deixava aflita. O silêncio era como um grito de grande tortura em seus ouvidos. O silêncio para ela era mais agudo que um apito, para ela era a dúvida, a falta de resposta diante de uma dor.
       Caminhar na rua, ela sabia bem. Risonha no seu vagar. Um vestido branco esvoaçante, um laço no cabelo, e de repente, outra mulher. 

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Momento de Paz

       A caridade está pedindo alguma coisa em troca. A piedade também quer ganhar. Essa simpatia é tão gananciosa, e os sorrisos são artificiais. A Cidade estava quente e o sol embaraçou a minha mente sã. Bateu um sono leve, uma impaciência de bebê com fome, que coça o olho de sono. A cada quarteirão uma esperança, o cansaço da procura, a decepção do não. Na esquina escura as idéias se libertam. No banquinho do lago aqui bem perto, agente senta com o único compromisso: o de fazer valer a pena ter caminhado todos esses quarteirões pra ver intensificada a existência, o sentimento de paz. Calma e nada mais. Certo, agora já ta perto de eu entender tudo isso. Só quero mais um compromisso pra desembarcar de uma vez nesse xadrez que é a vida. Mas uma vez essa palavra VIDA e me encher os ouvidos. Eu vou vivendo escutando músicas que eu já deveria saber cantar. Hoje senti saudade de alguém, e nem me importei. Foi carência, foi engano. Parar e escutar essa música, é o que eu vou fazer, vai ser meu momento de paz.


terça-feira, 10 de maio de 2011

Acontecimentos

       Pela manhã o sol se escondeu e escutei uma música romântica. Desci a ladeira com um sorriso no rosto, e pro mundo eu sorri. Os pingos de chuva engrossaram e a vida continuava mesmo assim. A rua virou rio. E os carros e caminhões formaram ondas, molhando a velha que dormia na janela do bonde. O sol não quis aparecer, deixando todo mundo com guarda-chuva na mão. Os guarda-chuvas variados, coloridos, quebrados, abertos ou fechados. Foi água até não querer mais, os preguiçosos aproveitaram a ocasião, nem saíram do colchão. Os trabalhadores agitados fazendo confusão, subindo e descendo em todas as direções. Havia muita gente acordada, muita gente calada. O garoto tacou o queixo no chão. O bonde freou e o bêbado bateu a cabeça na janela fazendo um estrondo que despertou a galera. Foram risos presos, risos soltos e dentro de mim uma legião de pensamentos. Vontade de escrever, de escutar música, menos de estar na rua aquela hora. Tive que comprar um guarda-chuva feminino, todo verde com flores coloridas, pra escapar do banho e pra não perder meus aparelhinhos eletrônicos. A tragédia era dita no jornal do meio dia, Fortaleza virou Veneza, e as crianças eram uma só alegria. Brincavam de mergulhar, de chutar água suja um contra o outro. Lembrei-me: também já fiz isso quando criança. A chuva me deixou um tanto diferente. O clima está propício para a poesia, mas preferi sentar aqui e despejar uma coisa menos trabalhada. Lançar frases curtas me é interessante. 

terça-feira, 12 de abril de 2011

Cemitério

       Esse cheiro de vela me lembra cemitérios. Cemitérios que já frequentei visitando os que já se foram há tanto tempo. Tem um local, que me lembro bem, onde eram acesas as velas mais diversas, e aquele cheiro de cera derretida no ar. As mais belas e tristes intenções eram as de quem acendiam as velas e lá as pregavam em preces oprimidas. Eu gostava de ir no dia de finados. De certa forma a tristeza das pessoas, aquelas flores tão coloridas, os epitáfios, a capela com suas imagens de santos piedosos, tudo aquilo me atraía, curioso como eu era, tudo me era sombrio e me atraía, inexplicavelmente. O que me deixava cabreiro era a morte das pessoas em pleno dia de finados, eu achava trágico, assim como a morte na virada do ano ou no dia do próprio aniversário. Hoje, essas coisas não me importam mais. O cemitério não me é mais atraente, pois perdeu toda aquela imagem fantasiosa e todos os fantasmas que o habitava quando eu era menino. Lembro-me que numa viagem, fiquei hospedado na casa de uma prima, e todos nós estávamos apaixonados pelo rock. Ah, como era bom escutar rock. Uma sensação de liberdade diante de todos nós, nos sentindo tão diferentes, tão exclusivos. Marcamos todos de entrar, quando a noite chegasse, no cemitério da cidade pequena. Nos reunimos e bebemos alguns vinhos, depois pulamos o portãozinho do cemitério, e de repente lá estávamos todos, na escuridão mais pura e sem fim, com coroas de flores empoeiradas e fotos velhas de quem já morreu à nossa frente. Nada daquilo me assustou. Era uma aventura pra mim. Foi muito rápido. Uma garota que estava com a gente de súbito se assombrou e nervosa pedia para voltarmos, o silêncio dos mortos a perturbava. Seu cordão arrebentou, segundo ela sem que ela o tocasse, quebrou assim como se alguém tivesse puxado. Claro que não acreditei. Tivemos que voltar às pressas, pois devido ao alvoroço da garota as outras meninas também se alvoroçaram, e antes que alguém nos pegasse ali, pulamos o portão de volta. Lembrei-me desse episódio de minha humilde vida por conta da queda de energia que se deu aqui em casa, foi preciso acender velas e o cheiro de cera derretida invadiu a casa. Vela me lembra defunto. 

segunda-feira, 28 de março de 2011

Banho de chuva


Foi de súbito. O céu de repente enegrecido, as nuvens tapando o sol em trevas. E todos puderam ter a mesma premonição. Em poucos minutos uma grossa chuva cairia do céu. Os carros correrão, temendo um maior engarrafamento. Muitas pessoas deixaram o guarda-chuva em casa por conta do impiedoso sol que fazia. Era um calor descomunal, a vida estava escaldante antes do meio dia. Encaminhei-me para a parada de ônibus e logo pude ver uma multidão de estudantes que voltava de uma aula matutina. Os adolescentes todos muito alvoroçados, conversavam alto, as garotas gritavam alucinadas. Quando uma garoa começou, era apenas o início. Todos tentaram encontrar um pequeno espaço debaixo de um telheiro da loja ao lado da parada, mas como a quantidade de alunos era muito grande não coube todo mundo. Eu, acreditando que sairia dali antes do grande temporal, não me importei em ficar com apenas um lado de meu corpo debaixo do alpendre. O vento soprou frio e agressivo, e os pingos engrossaram consideravelmente. E fez-se o tumulto. A grande chuva molhava a maior parte de gente, o vento trazia os pingos para debaixo do telheiro causando risos e gritos. Desmanchando maquiagem, encolhendo os cabelos, molhando os livros. Um garoto alto mostrou pura tranqüilidade, molhando-se todo e servindo de barreira para mim e uma garota muito baixa, que se escondia no meio das pessoas aglomeradas. Tinha uma garota de cabelos amarrados e sotaque diferente, muito da eufórica. Ria alto e esbravejava felicidade, infantilizada com a situação. Comentei algo com ela, ela me respondeu consentindo com a cabeça e esbugalhando os olhos num êxtase afobado. Nada do coletivo chegar. Sem mais nem menos, uma biqueira começou a derramar água, que trazida por um vento violento molhava todo o povo. E chegando o coletivo todos corriam corajosos, encolhidos num abraço aos livros. E num momento era possível perceber alegria naquela gente, e em mim também. Passou um velho aos pequenos pulos, com uma agenda na mão, sorrindo como uma criança, se divertindo com o banho. E todos riam alto quando a biqueira escorria em nossa direção, eram dados gritos, mas não era pavor o que sentíamos, era euforia contida. E me veio a lembrança dos meus banhos de chuva, que eram freqüentes no inverno, banhos no início do dia, a água gelada torturava, mas valia a pena. Um homem surgiu trajado de terno e gravata, calçando seu sapato social. Correu desengonçado para atravessar a rua chamando toda a atenção dos que estavam ali. Foi um riso só, um coro sincronizado de risos altos, era percebível um deboche saudável. O homem não se importou. A chuva parecia infinita, mas aos poucos cada qual foi pegando o seu rumo, aos poucos o céu foi clareando e um indício de sol aparecia. Tomei o ônibus junto com várias pessoas, que entravam molhadas e falantes. A menina baixa trazia o rosto machado, o lápis preto que delineava seu rosto escorria nas bochechas dando-lhe um aspecto macabro. Uma mulher muito interessada em nós comentou: Eita que vocês tomaram foi um banho, e riu simpática. Cheguei em casa, a chuva ainda não parou, houve uma pausa, mas logo os pingos voltaram  cair 

quarta-feira, 23 de março de 2011

Biblioteca


Fiz um cadastro em outra biblioteca pública aqui da cidade. Ainda leio, não como antes, mas leio. Decidi, por conselho de um amigo, conhecer essa outra biblioteca, que fica até mais próxima daqui de casa. Ela se localiza no Benfica. O Benfica é onde eu deveria morar. Lá, nesse bairro dos estudantes, lá se dá os encontros das mais variadas tribos urbanas. E é pra lá que sempre vou esquecer os problemas e escutar o velho samba. O que mais me agrada nesse bairro e a diversidade. Lá tem gente de todo jeito e toda idade. Pois bem, fui fazer meu cadastro lá com o intuito de voltar pra casa com um novo livro. Acontece que um dos documentos que levei não era válido por motivo que desconheço completamente. Existia certo sadismo na moça que faz cadastros, percebi um indicio de felicidade, quando constatou que minha documentação não estava de toda completa. Fiquei desapontado, eu só queria um novo livro e não me deram. Voltei no dia seguinte e esperei por um bom tempo para que o cadastro ficasse pronto. A biblioteca é mais rústica que a outra freqüentada por mim, a tecnologia está ausente no local. Mas não posso ser tão cruel a ponto de só falar de seus defeitos, afinal tudo tem seu lado bom. Seus livros são magníficos e na minha técnica de caçar livros, logo descobri uma prateleira interessantíssima que me cativou. Voltei pra casa com meu livro novo e minhas novas impressões. A moça que me atendeu, outra, mais séria, impaciente, porém educada, tinha a voz grossa. Pergunto-me muito o porquê da falta de simpatia nos olhares dessa gente, o porquê dessa prepotência sem motivo. Enfim, fiz minha parte, concluí meu desejo, distribui meus sorrisos, e não conclui a leitura do livro. No começo me agradei até que me veio a crise, abandonei. Amanhã é dia de Benfica, e de cerveja. 

sábado, 12 de março de 2011

Esperando o Carnaval

Desejo como uma criança entrar no meio da bagunça dos embriagados do carnaval. Quero pular carnaval. Não sei se suportarei a melancolia e o silêncio dessa casa quando a data chegar. Não quero ficar escutando as machinhas nessa sala que já conheço há anos, nem a cerveja irá me animar se eu ficar aqui. Estou com uma saudade angustiante das folias, dos sorrisos exagerados e afobados. Das pessoas dançando em fileiras de loucuras. No carnaval eu não aceito a solidão, a tristeza. Desde a primeira vez que viajei com meus pais para a casa de um conhecido e lá fiquei, participando de toda a bagunça, nunca mais esqueci a felicidade que senti. E quando não tenho para onde ir nesse período, fico muito triste, desamparado, como uma criança sem seu doce ou brinquedo. Até choro. Por tanto dessa vez tomarei alguma atitude, ficar sentado no sofá, isso eu não vou permitir. E vejo cenas não vividas, não como uma ansiedade, mas como se pertencesse a uma vida passada, onde meu coração libertino escuta as melodias profundas em pulos de felicidade e satisfação. Embriagado pelo momento, pelo copo levado até a boca numa rapidez de dançarino profissional, formado nas ruas e nas festas. Há muito que viver, eu sinto falta de viver certos momentos. Isso é a mais pura ansiedade. Ou talvez seja carência. 

sábado, 26 de fevereiro de 2011

ESCREVER

Amo escrever. É algo que faço por gosto, por aptidão. Não sou forçado nem pago pra derramar aqui minhas poucas palavras. E é por isso que escrevo o que quero, é meu momento de liberdade. Quando me vem algo e fico com os dedos parados em cima do teclado, me pergunto: será que devo escrever isso? Aí, logo me lembro, eu não preciso escrever me preocupando com o que vão pensar. Escrevo pra me libertar, me encontrar e me perder. Hoje meu dia foi completamente diferente. Por conta do sentimento impertinente que me consumiu, por conta das horas que passaram mais ligeiras do que nunca. E de tanto amor que eu senti no final de semana, hoje foi dia de grande cansaço. Mas trabalhei e cheguei à pouco em casa. Conheci umas pessoas novas e pude mudar por alguns minutos o foco dos meus pensamentos. Aqui em casa meus pais já dormem. Insisto em escrever agora por que senti desde cedo uma necessidade. 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Espetáculo

Ontem por volta de seis horas da noite me encaminhei à biblioteca pública do Benfica. Recebo toda semana um convite para um evento cultural que recomendo a todos que tem oportunidade de sair nesse horário. Merquei com um amigo, mas ele acabou não indo. Existiam mesas num espaço aberto. O tema da peça, pois era uma espécie de teatro, era: cardápio cultural. Nas mesas eram dispostos livros de diversos autores e ao meu lado, enquanto eu lia, pude perceber alguém se sentando à mesa em que eu estava. Era um homem grande. Sentou-se e me perguntou algo que agora não me recordo, respondi. Tentei me fechar na leitura, mas fui atraído por uma conversa por mim pressentida. Perguntei: você participa sempre dos eventos da biblioteca? Ele respondeu rápido e interessado, como se eu não fosse dar tempo para que ele falasse tudo. E essa pergunta gerou outras e outras. Acabei descobrindo nele uma pessoa interessantíssima, de conversa construtiva. Falou-me sobre livros, o que me atraio arrebatadoramente e até me indicou um, que lerei. Conheci um amigo de verdade, penso agora comigo. Deslize meu foi não ter pegado um contato com meu mais novo amigo, e não me recordar de seu nome, nem um telefone se quer pedi. Ambos esperamos um pouco pelo início da peça, eu em particular esperava um amigo que não viria. Eu estava gostando da demora da peça, pois assim podia aproveitar a conversa. Ele me falou que cursou filosofia. Eu falei que escrevo e leio muito literatura brasileira. Ficamos à conversa quando um homem entrou badalando um pequenino sino dando início ao esperado espetáculo e as poesias começaram a ser recitadas, e da boca dos atores teatrais saiam as mais belas recitações. Bebi um pouco de vinho com sangria, fiquei de olhos brilhando. Fiquei muito inspirado com tudo, com a noite, com as pessoas que estavam ali, interessadas na mesma coisa que eu. Pessoas que fazem questão de participarem de uma arte tão bonita por amo e de graça. E alguns convidados que já faziam parte do meio artístico recitaram lindas e sérias poesias, que me eriçaram os pelos do corpo. Senti-me tão completo, no lugar certo e com as pessoas certas. É muito justo trocar o que te dá mais lucro e um falso conforto, por algo que você realmente gosta de fazer. Nada compra a satisfação de fazer algo que você ama. Nada substitui. Foram muitas poesias, foi muita satisfação de minha parte e uma melancolia depois, talvez por querer demais. Em suma pretendo repetir esses programas.  

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

SOBRE UM DIA

       A leitura é uma das grandes causadoras de minhas inspirações. Hoje, tendo o prazo de entrega dos livros emprestados da biblioteca esgotado, me encaminhei até lá. Fui decidido a não pegar novos livros emprestados. Fiquei desapontado com a falta de interesse que senti pelos últimos dois que peguei e considerando a distância e a dificuldade de tomar um ônibus de volta, eu estava decidido. Chegando lá constatei que hoje era o dia de entrega e não foi preciso pagar nenhuma multa, o que também provou que minha memória está em perfeita condições. Pois bem, falei baixinho para a moça que recebe os livros: hoje vou apenas entregar. Ela concordou com um sorriso rápido e quase forçado. Mas de súbito fui atraído pelas prateleiras cheirosas da biblioteca, e fiquei encarando aqueles livros silenciosos, quietos, esperando por um leitor. Aí não aguentei  disse: vou dá uma olhadinha lá dentro. Entrei por entre as prateleiras e lá me perdi. Numa técnica só minha comecei a procurar o livro certo. Tem dia que passo horas escolhendo. Pego sempre dois, não é permitido mais. Hoje tive sorte e bom gosto. Encontrei um livro de crônicas e abri-o. Li um trecho que imediatamente me comoveu alegremente e decidi trazê-lo. Depois encontrei um livro de minúsculos contos, o que me agradou demais. E bastou eu me sentar para lê-los que veio uma vontade descontrolada de escrever. Ah, é como um insone que espera o sono e quando o tem fica completo, repleto de alegria, leve. Na volta esperei, junto de várias pessoas, por um ônibus que me coubesse. Aqui as pessoas ficam penduradas na porta no horário chamado: horário de pico. Eu não me arrisco. Só pego a condução quando me cabe. Veio depois de alguns minutos um ônibus que me pareceu aceitável e subi. Fiquei quase uma hora lá dentro me divertindo com pensamentos tão descontraídos que me espantei com o bom humor que me tomava. Percebi que estava sendo feliz numa situação que pra muitos é deprimente. E ri junto com o resto do povo que numa guerra lutou para pegar a outra condução já no terminal. Ah, estou cansado de queixas. Estou cansado de cobranças. Não aceito mais as complicações. Adeus depressão forçada. Meu espírito é feliz. Agora devo dormir, o relógio acabou de marcar meia noite.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Pequena Estória.

Sem dúvida hoje é um dia de grande sensibilidade de minha parte. Onde uma saudade grande me invade. Saudades dos amigos que agora estão longe e provavelmente ouvindo um samba. Poderia eu fazer o mesmo, mas a noite passada foi de muita dança, e talvez o cansaço seja o grande causador dessa nostalgia que não me incomoda. E de repente uma vontade de sorrir de tudo isso, de toda essa vida bagunçada que levamos e que nos faz, em momentos, felizes demais. Grandes contradições existem, mas os sentimentos efêmeros são mais verdadeiros, na maioria dos casos. Às vezes não prolongar demais é mais lucrativo. Vou ouvindo essas músicas que, lentas, me embalam numa emoção fresca. Escuto uma voz tão bonita de um cantor que nem conheço, mas que envolve. Estou conhecendo um novo escritor, lendo uma seleção de seus contos, me agradei bastante. Há tanto o que escrever. Só que sinto as palavras restritas aos meus pensamentos. O talento é o que existe de mais bonito em cada ser humano, seja ele qual for. Vou contar uma pequena história de amor:

Quando o sol, prestes a se por, ficava mais fraco, ela levantava a cabeça num orgulho com brilhos nos olhos. Ela ia encontrá-lo, e eis que sentiria aquela calma no peito, aquele alívio. Ele a olharia com rapidez, numa timidez tão atraente. E sentariam um ao lado do outro, ambos procurando o que falar, tentando fugir de um silêncio, tentando não causar más impressões. Ela falando coisas tão pessoais, usando palavras íntimas. Ele escutando, esperando sua vez de falar, com um olhar indecifrável. Fim.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Atuais Trabalhadores


Abre, depois de muita espera um portão branco-amarelecido que dá acesso a uma pequena área ocupada por congeladores. As crianças falantes entram apressadas, ansiosas. A Tia ordena impaciente com voz alta e aguda- aquietem-se, aquietem-se. E as crianças imundas tentam sem sucesso ficar caladas. É um grupo formado por seis meninos e apenas uma menina, muito braba, arengueira. Os meninos trabalham para a Tia. Da cozinha vem um cheiro nada apetitoso de bofe cozido, os meninos contam o dinheiro conseguido com muita andança e suor. A Tia é uma mulher muito aperreada, com afazeres minúsculos que sua mente complica. Ela pensa fazer um bom trabalho. Na televisão passa que trabalho infantil é crime, mas a Tia acha que crime mesmo seria se todas essas crianças ficassem largadas no mundo aprendendo a roubar e a usar drogas, são todos tão pequenos. As crianças são em geral morenas e beiram os dez anos, de um queimado de sol visível, um bronze que a vida lhes deu. Usam roupas velhas, claro, camisas bem maiores que o corpo, calção esgarçado e sujo. Alguns andam de calçados, e outros vão descalços mesmo. Mas todos com o único objetivo de vender e ganhar algum trocado na prestação de contas com a Tia. Eles andam por todo o bairro e ultrapassam fronteiras. Oferecem uma espécie de sorvete, o que atraí muita gente nessa cidade quente. Na placa permanente que fica suspensa no portão da Tia tem escrito preciso de vendedor, os meninos não sabem ler, mas a placa deixa bem claro que todos são facilmente substituíveis. E lá estão os garotos, na prestação de contas com a Tia, alvoroçados, embaraçados pela dúvida. Um menino muito danado pergunta: Tia quanto tenho que dar pra senhora?- a tia responde ríspida, por que apesar de sentir um afeto muito oculto pelos meninos não deixa isso transparecer- dez reais e vinte e cinco. O maior de todos, que exibi uma superioridade por saber contar melhor, começa a dividir o dinheiro. E no final das contas cada qual sai com uma quantia de dois a três reais, felizes. Um ou dois compra da própria mercadoria um sorvete para matar a sede. Os outros, não sei o que fazem com o dinheiro, provavelmente entregam a mãe. No dia seguinte, todos muito dispostos voltam ao trabalho.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Ausência de Sol

Como hoje choveu! Precisei acordar bem cedo devido a uma reunião que começaria às oito e meia da manhã num hotel que fica na Praia de Iracema. Como moro bem distante do Mucuripe, leva quase uma hora e meia daqui pra lá, levando em conta a demora do ônibus e o transito engarrafado, tive que acordar seis da manhã, o que pra mim é cedo demais. Dorminhoco que sou. Acordei e logo pude ouvir o estrondo da grande chuva que caia formando rios por entre as ruas. Entrei debaixo do chuveiro e tomei um banho rápido, tão tomado de frio eu estava. Depois de vestido apropriadamente para a reunião, saí no meio da chuva à procura de condução. Atrasei-me quase duas horas e quando cheguei ao local marcado, a reunião acabava de acabar. E durante todo o dia a chuva continuou caindo, caindo até agora. São nove e dezenove da noite. O transito permaneceu parado por um longo tempo. As ruas alagaram-se sem ter pra onde a água escorrer. Muita gente colocou literalmente o pé na lama. Tinha um homem de barco numa das principais avenidas da cidade que virou mar. Mas vivemos assim mesmo, e eu, mesmo com o temporal, fui à rua fazer meu trabalho aproveitando a ausência de sol. 

domingo, 9 de janeiro de 2011

Ao Cair Da Tempestade

O dia está frio. De noite caiu uma chuva ensurdecedora que sangrou por uma goteira derramando-se sobre minha rede que logo ficou ensopada. Eu dormia mesmo assim, sentindo os pingos batendo em minha cara, numa mistura de sonho e realidade recém-chegada. Fiquei suportando os pingos até que despertei sobressaltado. Despertei como se emergisse da morte e olhei a rede que agora possui uma cor mais escura por conta da água. Foi então que passei a ouvir os estrondos causados por trovões de pura fúria da natureza. A varanda agora reluzia com o piscar de raios, à luz que invadia descaradamente o compartimento.  Olhei a varanda e me levantei sem escolhas, eu queria mesmo era dormir, mas o sono se foi sem eu querer, e me veio uma insônia desconhecida, nova. Quando olhei a tempestade fiquei vislumbrado. Há tempos não chovia de tal maneira. Há tempos o sol nos obrigava a suar. Enquanto chovia eu estava esquecido de mim mesmo. E ainda estou esquecido, pois aquela noite me ensinou a me esquecer. Não me refiro a um desleixo, mas de um desligamento mais profundo. e então fiquei sentado numa cadeira que fica na sala, de um desconforto normal. Sentei-me de olhos fechados, mas sem dormir, eu não podia dormir. O que eu esperava exatamente? O que me esperava naquela noite de ninguém? Quando o barulho das gotas no teto ficou mais ameno fui me infiltrando em imagens desconexas e soltas, eu as controlava como um ébrio se controla. As imagens me acalmavam por serem amorfas. Como uma hipnose involuntária do sono. Foi quando dormi sem peso. Larguei-me ali mesmo na poltrona, esquecido de tudo. Quando despertei na manhã do mesmo dia, pois a chuva se deu por volta das quatro horas, quando despertei já não me lembrava do ocorrido. Já não me lembrava da varanda reluzindo. Foi ao ouvir os boatos da tempestade que me recordei do meu momento, só meu. E hoje o dia foi exaustivo. 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Praça

De quando em quando me lembro da praça, onde quando em criança eu me divertia com nada. Eu subia no coreto e passava por entre as grades espaçosas de corrimões amarelos e arredondados. A praça era grande, e em muitos lugares eu repousava com meus amigos desocupados. E como o domingo era esperado por mim. Todos os domingos eu saia com meus pais à caminho da casa de minha tia. Às vezes íamos passar o domingo inteiro e durante a tarde eu ia pra praça que ficava de frente pra casa de minha tia. Lá tinha árvores grandes e aparentemente velhas. Tinha também uma igreja com uma pequena gruta onde eu molhava a mão. Um dia eu e meus amigos fomos brincar de gangorra, mas num desequilíbrio acabei caindo e fui levado ao hospital onde engessaram meu braço. Eu era tão curioso quando criança que até gostei da experiência de ter quebrado o braço. Hoje eu não suportaria. De noite a praça ficava extremamente povoada e na época eu não conhecia o perigo, tão livre eu era. Meus pais enquanto conversavam na calçada me deixavam passear. E eu caminhava numa fantasia que era só minha. Mas o que mais me encantava era quando chovia. Ah, quando chovia e eu saia correndo no meio de ninguém , eu só sendo banhado pelas gotas frescas de água que caiam. Os braços saltados pra cima. Um sonho se fazendo real. A praça banhada pela chuva se tornava um mundo novo pra mim. Foi também na praça que me embriaguei pela primeira vez, mas isso já foi mais tarde. Recentemente eu fui com meu pai à casa de minha tia e claro não deixei de ir até o coreto onde eu subia. Lá eu me sentei, mas muita coisa mudou e estranhei o lugar. Como nós somos mutáveis e como eu mudei! Eu não conheço mais quem eu era. Agora só conheço quem eu sou. O passado é tão belo pra mim, ele me prova tantas coisas. Até parei de lembrar tanto do que passou, mas quando paro pra pensar me emociono com as mudanças e com a capacidade que temos de deixar tudo guardado. Algumas coisas eu conservo na memória, mas não as quero para lembrar no dia-a-dia, pois são muito importantes e talvez me fizessem chorar. Sou tão emotivo que até posso ser confundido com uma pessoa depressiva, mas não, existe uma grande diferença, eu sou feliz! A minha emoção gera minha felicidade. É tudo um conjunto que forma: eu. 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Óculos

Como é bom chegar em casa depois de um dia de trabalho, agora entendo o que é descansar. É bom está cansado de tanto trabalhar, pior era a ociosidade que me consumia quando eu não tinha o que fazer. O que me salvava eram os livros que eu lia, pois a TV me estressa. Não gosto de televisão. Raramente me prendo a algum programa ou novela. Gosto do cinema nacional, principalmente filmes inspirados em livros.  Hoje tive que comprar uns óculos pra mim, meu problema de vista está se agravando. Como tive que fazer um exame antes da compra dos óculos, a auxiliar da doutora aplicou em meus olhos uma espécie de líquido que dilata a pupila e que por sinal arde muito. Chorei, pois o líquido agride os olhos. Depois fiz o exame e ouvi a orientação de que não devo ficar sem óculos. Logo eu que tenho um imenso complexo com esse objeto tão importante. Já comprei vários e nunca me agradei com nenhum. Me estranho. Sinto-me quase mascarado. Acho bonito no rosto das outras pessoas, mas em mim não gosto. Daí, fiquei numa grande dúvida em relação à escolha do modelo, é uma besteira, mas me enche de aperreio. Escolhi um que na hora me agradou, mas já estou preocupado. Não sei se vou gostar da mesma forma quando eu recebê-lo pronto pra usar. Quando sai da clinica com a vista completamente ofuscada, me senti como uma criança que enxerga o mundo pela primeira vez. O sol doía na minha vista como fogo, foi horrível. Quase fui atropelado. Aos poucos fui recuperando minha visão normal.